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Artigo Técnico: Presentismo laboral – quando estar no trabalho é uma ameaça ao bem-estar e à produtividade

A prevalência do fenómeno do presentismo laboral é uma das preocupações dos gestores da atualidade, sendo um comportamento de trabalho comum em todas as profissões

IIRH Por IIRH
9 de Maio, 2024
em ARTIGOS TÉCNICOS
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Artigo Técnico: Presentismo laboral – quando estar no trabalho é uma ameaça ao bem-estar e à produtividade
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 Autora: Catarina Correia Leal, PhD | Assistant Professor & Researcher | Business Research Unit (UNIDE-IUL) | Ciência-Iscte Profile


“Hoje acordei e senti-me engripada.”

 

– “Tenho-me sentido desesperado, com uma sensação de tristeza profunda.”

– “Ontem fui ao médico. Lombalgia. Aconselhou-me a ficar em casa.”

– “Hoje não me sinto bem psicologicamente.”

Estas são situações comuns. Com certeza que já se viu numa destas situações. Ou conhece alguém que já esteve numa destas situações. Também acreditamos que apesar do que sentia, tomou a decisão deliberada de ir trabalhar, mesmo sabendo e sentido que deveria ter permanecido em casa, a recuperar e a zelar pela sua saúde e bem-estar. A questão que lhe colocamos é, por que razão tomou a decisão de ir trabalhar apesar de não se sentir bem?

A prevalência do fenómeno do presentismo laboral é uma das preocupações dos gestores da atualidade, sendo um comportamento de trabalho comum em todas as profissões (Lohaus & Habermann, 2019). O presentismo laboral é definido como o comportamento de se ir trabalhar apesar de se estar doente física ou psicologicamente (Karanika-Murray et al., 2021), sendo-se incapaz de desempenhar funções profissionais e atingir níveis de produtividade esperados (Hemp, 2004). Este comportamento resulta tipicamente numa redução significativa da produtividade (Robertson & Cooper, 2011) em termos de: quantidade produzida, ou seja, a produção dos colaboradores não cumpre os objetivos de trabalho definidos, principalmente devido à dificuldade de concentração; mas também em termos de qualidade do trabalho produzido, devido a erros e omissões nos procedimentos de trabalho (Hemp, 2004; Niven & Ciborowska, 2015).

Presentismo laboral, um comportamento de risco para empresas e colaboradores?

O presentismo laboral surge como um comportamento de risco para as empresas. Por um lado, a presença de doenças reduz o desempenho dos colaboradores, exigindo-lhes um “esforço suplementar para atingirem níveis de desempenho mais próximos daqueles que teriam sem doenças” (Correia Leal & Ferreira, 2021, p. 2). Por outro lado, o desempenho coletivo pode diminuir porque os outros colaboradores tentam ajudar os colegas doentes, ou porque os colaboradores doentes podem transmitir doenças infeciosas aos seus colegas e/ou clientes (Demerouti, et al., 2009).

Estudos apontam ainda que este comportamento implica mais custos e perdas económicas do que outros comportamentos, como por exemplo o absentismo (isto é, a não comparência ao trabalho; Hemp, 2004; Johns, 2011).

O presentismo é cada vez mais apontado como tendo impactos negativos no desempenho das empresas quando não é corretamente gerido (Ferreira & Martinez, 2012). No entanto, o presentismo deve ser considerado também como um comportamento de risco para o próprio colaborador, com efeitos a longo prazo. Ao tomar a decisão deliberada e continuada de ir trabalhar apesar de não se sentir física ou psicologicamente apto para tal, o colaborador encontra-se mais suscetível ao risco de cair em espirais de perdas de recursos vitais essenciais, como são a sua saúde e energia (Bakker et al., 2019) – associados à falta de recuperação e ao agravamento das condições de saúde (Johns, 2011).

Sabendo isto, qual é o grande desafio para as organizações e gestores de recursos humanos?

Conhecendo a ameaça invisível que o presentismo preconiza, ter organizações que colocam o bem-estar dos seus colaboradores no centro das suas práticas de gestão de recursos humanos (GRH) e que, simultaneamente, são capazes de manter elevados níveis de desempenho continua a ser um dos grandes desafios atuais.

No entanto, sabe-se que, em alguns casos, os esforços das organizações para aplicar práticas de recursos humanos (RH) para melhorar o desempenho resultam em situações laborais que colocam em risco o bem-estar dos colaboradores devido à falta de recursos disponíveis para lidar com as exigências de trabalho crescentes (Guest, 2017). É então essencial não descurar que a saúde e o bem-estar dos colaboradores devem ser uma prioridade para as organizações, especialmente porque as evidências apontam para a forte relação entre bem-estar e desempenho (por exemplo, Bakker et al., 2008; Daniels & Harris, 2000).

Assim, torna-se urgente a sensibilização para a criação e promoção de políticas organizacionais que promovam o bem-estar e a saúde dos colaboradores. De modo transversal às suas organizações, os gestores e as suas equipas devem estar preparados não só para gerir eficazmente os padrões de presentismo por doença, mas também para antecipar e diagnosticar estes padrões de assiduidade ao trabalho. Estes esforços são imperativos não só para, por exemplo evitar a perda de clientes atuais e potenciais, mas também para proteger a saúde e o bem-estar dos colaboradores. Ao fazê-lo, as organizações terão mais probabilidades de evitar que os seus trabalhadores caiam em espirais de perdas de recursos associados à falta de recuperação e ao agravamento de condições de saúde (Johns, 2011), resultantes de comportamentos de presentismo continuados.

Ter atenção à prevalência de climas de presentismo, isto é a perceção partilhada dos colaboradores sobre a competitividade dos colegas de trabalho, a dificuldade de substituição e a valorização do tempo que se passa no local de trabalho (Ferreira et al., 2019; Mach et al., 2018), também deve ser uma das preocupações dos gestores da atualidade. Sendo apontado como um importante antecedente de comportamentos de presentismo e tendo o poder de aumentar os níveis de burnout, torna-se imperioso ter em consideração a forma como este importante fator contextual pode afetar os colaboradores. Assim sendo, as organizações devem unir esforços e criar condições de trabalho e políticas organizacionais que permitam aos seus colaboradores realizar o seu trabalho de forma saudável e sem receio das repercussões do absentismo por doença. De acordo com estudos anteriores, uma forma possível de alcançar tais resultados é criar um ambiente de trabalho que permita a redução do comportamento de presentismo, por exemplo, através da implementação de programas de promoção da saúde e de atividades físicas orientadas para a promoção da saúde dos trabalhadores (e.g., Mach et al., 2018; Michishita et al., 2017; Walker et al, 2017). Intervenções baseadas em relaxamento e meditação e terapias cognitivas e comportamentais (Ruhle et al., 2019) também podem ser implementadas para diminuir tais comportamentos.

A implementação de uma cultura focada na saúde também deve ser central para as organizações. De acordo com Ruhle e Süb (2020) em culturas organizacionais onde se olha para o presentismo por doença como ilegítimo e para o absenteísmo por doença como legítimo, as organizações são percecionadas pela sua força de trabalho como protetoras e preocupadas com a saúde dos colaboradores. Entre os comportamentos visíveis nestas culturas, o facto de os gestores atuarem como modelos de comportamento é da maior importância (por exemplo, George et al., 1999). Por isso, as organizações devem estar atentas aos potenciais contributos que os seus líderes podem acarretar para a prevalência de comportamentos de presentismo (Ruhle & Süb, 2020). Da mesma forma, investir em intervenções direcionadas para aumentar o apoio dos supervisores e dos colegas de trabalho, e o redesenho do trabalho para reduzir ou distribuir melhor elevadas cargas de trabalho também podem ser consideradas para minorar a prevalência do presentismo e, consequentemente, as suas consequências negativas (Dababneh et al., 2001).

Por fim, e não descurando o papel importante da transformação digital, aproveitar o potencial da tecnologia para monitorizar os comportamentos de presentismo, por exemplo, através de aplicações com recurso a gamificação poderá ser outra forma de combater comportamentos de presentismo laboral. Através de intervenções que recorram a este tipo de inovação tecnológica, poderá ser possível às organizações não só monitorizar os comportamentos de presentismo da sua força de trabalho, mas também reduzi-los através do desenvolvimento de estratégias de autorregulação diária (Ruhle et al., 2019).

Em suma, estar doente física ou psicologicamente é quase inevitável e recorrente nas nossas vidas. Por esta razão, as organizações devem estar preparadas para estas situações de doença, devem unir esforços para criar locais de trabalho saudáveis, promover climas onde a saúde esteja em primeiro lugar e ter procedimentos e práticas que permitam às pessoas recuperar e regressar ao trabalho, capazes de tirar partido de todo o seu potencial.

Referências
Bakker, A. B., W. B. Schaufeli, M. P. Leiter & T. W. Taris (2008), Work engagement: An emerging concept in occupational health psychology. Work & Stress 22(3), 187-200. https://doi.org/10.1080/02678370802393649
Bakker, A. B., Sanz-Vergel, A. I., Rodríguez-Muñoz, A., & Antino, M. (2019). Ripple effects of surface acting: A diary study among dual-earner couples. The Spanish Journal of Psychology, 22(e-7), 1-12. https://doi.org/10.1017/sjp.2019.6
Correia Leal, C., & Ferreira, A. I. (2021). In sickness and in health: The role of housework engagement in work productivity despite presenteeism. The Spanish Journal of Psychology, 24, e39. https://doi.org/10.1017/SJP.2021.37
Dababneh, A. J., Swanson, N., & Shell, R. L. (2001). Impact of added rest breaks on the productivity and well being of workers. Ergonomics, 44, 164–174. https://doi.org/10.1080/00140130121538
Daniels, K., & Harris, C. (2000). Work, psychological well-being and performance. Occupational Medicine, 50(5), 304–309. https://doi.org/10.1093/occmed/50.5.304
Demerouti, E., Le Blanc, P. M., Bakker, A. B., Schaufeli, W. B., & Hox, J. (2009). Present but sick: A three-wave study on job demands, presenteeism and burnout. The Career Development International, 14(1), 50–68. https://doi.org/10.1108/13620430910933574
Ferreira, A. I., Mach, M., Martinez, L. F., Brewster, C., Dagher, G. K., Perez-Nebra, A. R., & Lisovskaya, A. (2019). Working sick and out of sorts: A cross-cultural approach on presenteeism climate, organizational justice and work–family conflict. The International Journal of Human Resource Management, 30(19), 2754–2776. https://doi.org/10.1080/09585192.2017.1332673
George, G., Sleeth, R. G., & Siders, M. A. (1999). Organizing culture: Leader roles, behaviors, and reinforcement mechanisms. Journal of Business and Psychology, 13(4), 545–560. https://doi.org/10.1023/A:1022923005165.
Guest, D. E. (2017). Human resource management and employee well‐being: Towards a new analytic framework. Human Resource Management Journal, 27(1), 22-38. https://doi.org/10.1111/1748-8583.12139
Hemp, P. (2004). Presenteeism: At work-but out of it. Harvard business review, 82(10), 49-58. https://hbr.org/2004/10/presenteeism-at-work-but-out-of-it
Johns, G. (2011). Attendance dynamics at work: the antecedents and correlates of presenteeism, absenteeism, and productivity loss. Journal of Occupational Health Psychology, 16(4), 483-500. https://psycnet.apa.org/doi/10.1037/a0025153
Karanika-Murray, M., Biron, C., Hervieux, V., Whysall, Z., &, Chen, H. (2021). Managing presenteeism to optimize health and performance. In T. Wall, C. L. Cooper, & P. Brough (Eds). The SAGE Handbook of Organizational Wellbeing (pp. 232-247). Sage Publishing.
Lohaus, D., & Habermann, W. (2019). Presenteeism: A review and research directions. Human Resource Management Review, 29(1), 43–58. https://doi.org/10.1016/j.hrmr.2018.02.010
Mach, M., Ferreira, A. I., Martinez, L. F., Lisowskaia, A., Dagher, G. K., & Perez-Nebra, A. R. (2018). Working conditions in hospitals revisited: A moderated-mediated model of job context and presenteeism. PloS one, 13(10), e0205973. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0205973
Michishita, R., Jiang, Y., Ariyoshi, D., Yoshida, M., Moriyama, H., Obata, Y.,… Yamato, H. (2017). The introduction of an active rest program by workplace units improved the workplace vigor and presenteeism among workers: A randomized controlled trial. Journal of Occupational and Environmental Medicine, 59(12), 1140–1147. https://doi.org/10.1097/JOM.0000000000001121
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Robertson, I., & Cooper, C. L. (2011). Well-being: Productivity and happiness at work. Springer.
Ruhle, S. A., Breitsohl, H., Aboagye, E., Baba, V., Biron, C., Correia Leal, C., Dietz, C., Ferreira, A. I., Gerich, J., Johns, G., Karanika-Murray, M., Lohaus, D., Løkke, A., Lopes, S. L., Martinez, L. F., Miraglia, M., Muschalla, B., Poethke, U., Sarwat, N., Schade, H., Steidelmüller, C., Vinberg, S., Whysall, Z. & Yang, T. (2019). To work, or not to work, that is the question: Recent trends and avenues for research on presenteeism. European Journal of Work and Organizational Psychology, 1-20. https://doi.org/10.1080/1359432X.2019.1704734
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Walker, T. J., Tullar, J. M., Diamond, P. M., Kohl III, H. W., & Amick III, B. C. (2017). The association of self-reported aerobic physical activity, muscle strengthening physical activity, and stretching behavior with presenteeism. Journal of occupational and environmental medicine, 59(5), 474. https://doi.org/10.1097/JOM.0000000000000978


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