Por Maria João Correia, Arquiteta e Fundadora do Segmento Urbano
Portugal enfrenta uma escassez crítica de mão de obra na construção. Não há habitação, multiplicam-se projetos públicos, mas faltam pessoas para os executar.
As causas são conhecidas: profissionais envelhecidos, quase nenhuma via de qualificação técnica, escolaridade obrigatória de 12 anos e uma perceção social que desvaloriza o trabalho manual. Mas existe um problema mais profundo: trabalhar em obra continua a ser visto como algo “menos digno” – ou simplesmente impensável para quem tem 18 ou 20 anos.
Um setor envelhecido e fragmentado
Grande parte dos profissionais qualificados tem hoje mais de 50 anos. O setor assenta em pequenos subempreiteiros, sem estrutura nem capacidade de formar, presos a adjudicações rápidas. As empresas querem quem “já saiba fazer”, mas essas pessoas estão a desaparecer.
Durante décadas, muitos entravam na construção aos 12 ou 13 anos. Hoje estudam e já não regressam. Os que não seguem para o ensino superior optam por comércio, restauração ou plataformas digitais, porque a construção não lhes oferece reconhecimento nem progressão. Só podem ser engenheiros; não conseguem tornar-se encarregados, porque não há formação que o permita num país que atua como se tal só fosse possível começando a trabalhar em criança.
O novo rosto da obra: o emigrante precário
A falta de trabalhadores nacionais abriu espaço a equipas de emigrantes em condições frágeis, muitas vezes sem formação, segurança ou integração. São o suporte do setor, mas continuam invisíveis, dependentes de intermediários, sem oportunidade de crescer. Ainda assim, exige-se qualidade a quem chega sem qualquer apoio para aprender.
Não faltam pessoas – faltam caminhos
O problema não é falta de gente, é falta de um sistema que forme, valorize e integre. Sem investimento em qualificação prática e planos de progressão, o setor continuará preso a si próprio. Precisamos de devolver à aprendizagem técnica o estatuto de carreira e parar de fingir que o problema se resolve sozinho num país que, paradoxalmente, dificulta a entrada de emigrantes. O ciclo repete-se: ontem eram jovens sem formação; hoje são recém-chegados, igualmente sem apoio.
Reaprender o ofício
É urgente criar espaços onde se aprenda com as mãos e com a cabeça, ao lado de quem sabe. Formar em contexto real, com ética, segurança e orgulho. Mostrar que o digital, BIM, modelação, mecanização, não substitui o humano, apenas o amplia. Trabalhar bem é trabalhar com consciência, seja no estaleiro ou no computador.
A mudança começa nas pessoas
A transformação não nasce de regulamentos, mas de pessoas. É preciso devolver dignidade à aprendizagem, criar percursos reais e mostrar que um bom técnico deve ser tão respeitado como um engenheiro. Receber e formar quem quer aprender é o primeiro passo para reconstruir Portugal. Formar é construir futuro, e o futuro não se compra feito.
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