O
que a trouxe para Portugal?
Vim porque fui recrutada. Na altura, já trabalhava na área das políticas relacionadas com a droga na Bélgica, ao nível nacional, e surgiu uma oportunidade na agência europeia com sede em Lisboa. Foi sobretudo uma continuidade profissional. Não foi uma decisão motivada pelo país em si, mas pela função e pelo projeto europeu. Escolhi trabalhar para a Europa, e Lisboa fazia parte dessa equação.
Como caracteriza a cultura da agência onde trabalha?
Somos uma verdadeira “torre de Babel”. Trabalham na agência cerca de 150 pessoas, de 21 nacionalidades diferentes. Cerca de 30% são portugueses, muitos deles recrutados aquando da criação da agência. No entanto, a cultura interna não é propriamente portuguesa, é essencialmente europeia e intercultural.
Mas não se trata apenas de nacionalidades. O que também define o nosso ADN é a diversidade de perfis profissionais. Temos sociólogos, psicólogos, químicos, criminologistas, epidemiologistas, especialistas em prevenção, comunicação, relações internacionais, entre outros. Essa diversidade de culturas profissionais influencia muito a forma como trabalhamos. Diria mesmo que o domínio técnico da agência pesa tanto ou até mais do que a cultura nacional de cada colaborador.
Que desafios concretos implica trabalhar num contexto tão intercultural como o vosso?
Para ser recrutado é preciso dominar pelo menos duas línguas e provar o conhecimento de uma terceira no início da carreira. Mesmo assim, surgem desafios. Nem todos têm a mesma sensibilidade linguística, e podem ocorrer mal-entendidos. Às vezes interpretamos de forma diferente aquilo que é dito.
Outro ponto importante é o nível de formalidade. É preciso encontrar o equilíbrio certo nas interações, tanto internamente como com parceiros externos. A estrutura é relativamente horizontal, com poucas hierarquias formais, mas há muitas funções de coordenação entre serviços. Para quem chega, nem sempre é fácil compreender como tudo se articula.
No fundo, trabalhar num ambiente intercultural exige atenção constante, capacidade de adaptação e abertura às diferenças.
“Ainda hoje fico surpreendida com os baixos salários em muitas empresas portuguesas e com a aceitação relativamente generalizada dessas condições.”
O que chama a atenção no seu percurso é a forma aparentemente natural com que se move entre culturas. Qual é o seu segredo?
Talvez tenha mesmo a ver com a personalidade. Cresci numa família intercultural, com duas culturas em casa, e isso habituou-me desde cedo às diferenças. Cada pessoa vive a integração à sua maneira. O facto de vir da Bélgica, um país onde o compromisso faz parte do dia a dia, pode também ter ajudado. Mas, no fundo, depende muito de como cada um lida com as diferenças.
Quando chegou a Portugal, o que mais a surpreendeu na cultura de trabalho portuguesa?
Na altura, fiquei surpreendida com a importância atribuída aos títulos académicos e com um respeito pela hierarquia mais marcado do que na Bélgica. Ao mesmo tempo, encontrei uma sociedade extremamente acolhedora e tolerante, sobretudo com quem está a aprender a língua. Nunca me senti julgada, e isso ajudou muito na minha integração. No entanto, é também uma cultura mais reservada no acesso à intimidade. É muito acolhedora, mas entrar no círculo mais próximo leva tempo. Quando se entra, a amizade é muito forte.
Essa capacidade de aceitação faz-me também refletir sobre a tolerância em Portugal. É uma grande qualidade, visível no acolhimento e na paciência com quem chega.
Mas, por vezes, essa mesma tolerância traduz-se na aceitação de situações que noutros países seriam mais contestadas. Ainda hoje fico surpreendida com os baixos salários em muitas empresas portuguesas e com a aceitação relativamente generalizada dessas condições. Não sei se é fatalismo, mas essa aceitação continua a surpreender-me.
Que conselho daria a quem se instala em Portugal?
Diria para tentar compreender a cultura portuguesa em vez de a querer mudar. Aprender a língua é fundamental. E depois, aceitar o ritmo. Sair, misturar-se, ir ao café da esquina, observar como as coisas funcionam. Não vir com a ideia de impor referências externas.
No que diz respeito à integração, pelo menos no contexto da agência, não sinto que seja um problema. As coisas são bastante fluidas e a adaptação acontece de forma natural. As maiores dificuldades que vejo hoje não são culturais, são sobretudo práticas.
Lisboa tornou-se muito cara. Os custos de alojamento aumentaram bastante e a cidade mudou muito nos últimos anos. Para muitos recém-chegados, a dificuldade maior é simplesmente encontrar casa. Isso pesa muito na experiência de instalação.
O entrevistador: Luís Morgadinho, especialista em management intercultural da Elemento Humano
Como executive coach e formador em comunicação e management intercultural, acompanha líderes e equipas nas suas problemáticas de mudança e desenvolvimento, facilitando a emergência de culturas colaborativas. Desenvolve soluções que permitam às empresas iniciar a “revolução comportamental” necessária para ultrapassar os desafios relacionados com a internacionalização.
Artigo publicado na edição 163 da RHmagazine, referente aos meses de março e abril de 2026
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