S erá o HR Business Partner uma das próximas funções de Recursos Humanos a desaparecer com a Inteligência Artificial?
A pergunta não é descabida. Em maio de 2025, Josh Bersin, um dos mais reconhecidos analistas internacionais nas áreas de Recursos Humanos, trabalho e tecnologia, escreveu uma frase que dificilmente passaria despercebida.
Ao falar sobre a transformação dos RH na IBM, Bersin afirmou que “the role of HR Business Partner is all but eliminated except for very senior leaders” — ou seja, que o papel de HR Business Partner estaria praticamente eliminado, com exceção dos níveis mais seniores.
Seria tentador resumir a sua previsão numa manchete: “Josh Bersin prevê o fim dos HR Business Partners.”
Mas não é exatamente isso que o analista tem vindo a defender.
Quando se juntam os vários artigos, podcasts e trabalhos que Bersin publicou nos últimos anos, surge uma leitura bastante mais interessante: não estamos necessariamente perante o fim do HRBP, mas perante o fim de um determinado modelo de HRBP.
E a diferença é substancial.
O alerta que veio da IBM
A afirmação mais forte aparece no artigo Yes, HR Organizations Will (Partially) Be Replaced by AI, And That’s Good, publicado a 16 de maio de 2025.
Bersin começa por reconhecer que a Inteligência Artificial irá efetivamente provocar disrupção dentro das próprias equipas de RH e utiliza a IBM como exemplo.
Segundo o analista, a empresa anunciou que 94% das perguntas típicas de RH já eram respondidas por um agente de IA. Bersin acrescenta que a tecnologia já apoiava outras atividades, como a preparação de avaliações de desempenho, planos de desenvolvimento e aconselhamento a managers e líderes.
É neste contexto que surge a afirmação sobre a quase eliminação do HR Business Partner na IBM, exceto junto dos líderes mais seniores.
Mas Bersin vai mais longe. No mesmo artigo, estima que, em áreas como Learning & Development e HR Business Partner, poderá verificar-se uma redução de 20% a 30%, ou mais, no headcount de RH por colaborador.
O detalhe seguinte é essencial para perceber a sua tese.
Bersin não sugere simplesmente que essas pessoas desapareçam das organizações. Antecipa que parte destes profissionais possa passar a gerir plataformas de IA ou migrar para áreas como change consulting, organizational design, arquitetura de aprendizagem ou gestão de dados.
A sua conclusão é clara: o verdadeiro trabalho dos RH não é executar tarefas, mas criar valor e resolver problemas complexos.
É precisamente aí que começa a discussão sobre o futuro do HRBP.
O problema não é o HRBP. É o trabalho que o HRBP faz
A Inteligência Artificial está particularmente bem posicionada para assumir uma parte do trabalho que durante anos justificou a existência de estruturas de suporte de RH.
Pesquisar uma política interna. Explicar determinado procedimento. Apoiar um manager na preparação de uma conversa. Encontrar informação sobre remuneração. Criar um plano de desenvolvimento. Responder a perguntas frequentes. Encaminhar pedidos.
Tudo isto pode progressivamente ser feito através de sistemas de self-service e agentes de IA.
Em maio de 2025, poucos dias antes do artigo sobre a IBM, Bersin chegava mesmo a apresentar a integração da sua plataforma Galileo com o ServiceNow como uma espécie de “AI-powered HR Business Partner”, capaz de responder diretamente a managers e profissionais de RH sobre liderança, recrutamento, políticas ou desenvolvimento.
É precisamente este tipo de utilização da tecnologia que coloca em causa uma parte significativa do modelo tradicional de Business Partner.
Se um manager consegue obter imediatamente informação, aconselhamento básico e apoio sobre processos através de um agente inteligente, para que precisa de recorrer a um HRBP para desempenhar essa função de intermediário?
A pergunta é desconfortável, mas será cada vez mais difícil ignorá-la.
Bersin já defendia a transformação do HRBP antes do boom da IA
Na realidade, esta discussão não começou com o artigo sobre a IBM.
Em junho de 2024, Bersin dedicou um episódio do seu podcast precisamente ao tema: A New, Transformed Role For The HR Business Partner.
Aí recordava que a posição, concebida há mais de 25 anos como uma espécie de HR Generalist, se tinha tornado central para uma estratégia de pessoas bem-sucedida. O que defendia não era a manutenção do HRBP tradicional, mas a sua transformação.
E a ideia vinha ainda de trás.
Em 2023, ao apresentar o conceito de Systemic HR, Bersin defendia que os Recursos Humanos deveriam deixar de funcionar apenas como uma estrutura de prestação de serviços e passar a organizar-se em torno dos problemas do negócio.
Nesse modelo, defendia explicitamente a necessidade de Business Partners seniores, simultaneamente líderes e strategic advisors, com conhecimento, autoridade e capacidade para mobilizar equipas de RH em torno dos desafios enfrentados pelas diferentes áreas do negócio.
Ou seja: a ideia do HRBP como consultor estratégico antecede a atual aceleração da IA.
O que a Inteligência Artificial parece estar a fazer é tornar essa transformação muito mais urgente.
30% a 40% dos atuais trabalhos de RH podem ser automatizados
Em janeiro de 2026, Bersin aumentou o tom de urgência.
No artigo The Great Reinvention of Human Resources Has Begun, escreveu que a profissão de RH estava a entrar numa reinvenção profunda impulsionada pela IA, afastando-se do peso administrativo e aproximando-se de um modelo mais estratégico e “full-stack”.
A Josh Bersin Company analisou, segundo o autor, dados relativos a tarefas de mais de 250 funções de Recursos Humanos. A conclusão apresentada é expressiva: 30% a 40% dos atuais “jobs” de RH podem ser automatizados com relativamente pouco esforço.
Os exemplos apresentados são esclarecedores: interview scheduler, recruitment coordinator ou helpdesk assistant.
São trabalhos assentes sobretudo em coordenação, administração, pesquisa e execução de processos.
Bersin não acredita, porém, que isto signifique uma redução equivalente da profissão de Recursos Humanos. A sua previsão é uma mudança no mix de funções: menos posições rotineiras, novos papéis relacionados com IA e profissionais de RH progressivamente mais abrangentes e próximos do negócio.
É exatamente esta lógica que pode ser aplicada aos HR Business Partners.
De generalista de RH a consultor interno
Se retirarmos ao HRBP as dúvidas sobre políticas, os processos administrativos, grande parte da pesquisa, algumas análises e uma parcela crescente do aconselhamento básico aos managers, o que sobra?
Na visão que Bersin tem vindo a construir, sobra precisamente o trabalho de maior valor.
- Compreender o negócio.
- Diagnosticar problemas de pessoas e organização.
- Questionar e aconselhar líderes.
- Interpretar dados.
- Apoiar decisões de talento.
- Redesenhar trabalho e estruturas.
- Conduzir transformação.
- Articular diferentes especialidades de Recursos Humanos.
- Gerir problemas humanos para os quais não existe uma resposta automática.
Esta transformação aproxima o HR Business Partner muito mais de um consultor organizacional interno do que de um generalista de RH.
E é aí que Bersin parece colocar a fronteira entre os HRBPs mais expostos e aqueles que poderão tornar-se ainda mais relevantes.
Agosto de 2026: menos administração, mais consultoria
A evolução desta tese tornou-se ainda mais evidente num artigo publicado a 13 de agosto de 2026.
Em Despite Massive AI Investments, HR Jobs Are Booming. Why?, Bersin apresenta dados da Lightcast e chama a atenção para um aparente paradoxo: apesar do enorme investimento em IA, as ofertas de emprego relacionadas com RH continuaram a crescer e, nos últimos 24 meses analisados, estavam a aumentar mais rapidamente do que o emprego total nos Estados Unidos.
Então, se a IA automatiza RH, porque continuam a existir mais empregos?
Para Bersin, a explicação está precisamente na transformação das funções.
Os empregos mais administrativos — como HR administrator, HR assistant, recruiting coordinator ou training administrator — são os que estão sob maior pressão. Em simultâneo, os profissionais estão a aproximar-se das operações e a trabalhar em problemas de maior complexidade.
E o autor volta diretamente aos HR Business Partners.
Bersin afirma que, em empresas como Panasonic e Accenture, os HRBPs estão a ser elevados para funções de consultoria sénior, enquanto ferramentas de IA assumem suporte administrativo que anteriormente era prestado a líderes, managers e colaboradores.
Talvez esta seja a melhor síntese da sua visão.
Não é necessariamente o HRBP que desaparece. É uma parte do trabalho do HRBP que desaparece.
E isso obriga a função a subir na cadeia de valor.
O HRBP administrativo está em risco
A distinção é importante.
Um HR Business Partner cuja proposta de valor depende de:
- explicar políticas e procedimentos;
- fornecer informação que já existe nos sistemas;
- acompanhar workflows;
- encaminhar questões para especialistas;
- preparar documentação;
- responder a perguntas recorrentes dos managers;
- funcionar sobretudo como ponto de contacto entre o negócio e os restantes RH;
está bastante mais exposto à automação.
Não porque todo esse trabalho deixe imediatamente de existir, mas porque passa a poder ser realizado com menos intervenção humana.
Já o HRBP que conhece profundamente o negócio, percebe como a organização cria valor, domina dados, influencia decisões, identifica problemas de talento, ajuda a redesenhar funções e estruturas e acompanha líderes em processos complexos encontra-se numa posição muito diferente.
É esse movimento que está igualmente presente no projeto HR 2030: The Agentic HR Blueprint, da Josh Bersin Company.
A visão aponta para equipas de RH mais pequenas e mais planas, com maior agilidade e foco nos problemas do negócio, apoiadas por sistemas de IA agentic. E identifica data literacy, AI fluency e business acumen entre as capacidades que se tornam particularmente importantes.
O fim do HRBP? Talvez seja a pergunta errada
É possível, portanto, que muitas organizações venham a precisar de menos HR Business Partners.
Também é possível que deixem de precisar de determinados perfis de HRBP.
Mas seria redutor transformar a visão de Josh Bersin numa simples previsão do desaparecimento da função.
O movimento que descreve é mais profundo: o HRBP deixa progressivamente de ser um distribuidor de serviços de Recursos Humanos para passar a ser alguém que ajuda o negócio a resolver problemas de pessoas, organização, produtividade e transformação.
A Inteligência Artificial acelera esta mudança porque retira da função precisamente aquilo que é mais fácil automatizar.
E deixa mais exposto aquilo que realmente distingue o profissional.
Para quem hoje desempenha esta função, talvez a pergunta mais importante deixe, por isso, de ser:
“A IA vai substituir o HR Business Partner?”
E passe a ser:
“Se a IA fizer grande parte do trabalho operacional que hoje faço, que valor consigo eu acrescentar ao negócio?”
A resposta poderá determinar não apenas quem continua a ser necessário, mas também quem se torna significativamente mais valioso.
Preparar o HR Business Partner para esta transformação
A evolução descrita por Bersin coloca igualmente um desafio muito concreto aos profissionais: desenvolver as competências que permitem sair de uma lógica predominantemente operacional e assumir verdadeiramente o papel de parceiro do negócio.
É precisamente nesse contexto que se enquadra o programa de formação HR Business Partner do IIRH, atualmente na sua 2.ª edição.
Com um percurso de 50 horas, o programa trabalha áreas que ganham particular relevância neste novo perfil, entre as quais business acumen e estratégia, comunicação e feedback estratégico, Employee Experience e gestão de talento, liderança e gestão da mudança, HR Data & Analytics, ferramentas digitais e Inteligência Artificial aplicada aos RH, remunerações e benefícios e bem-estar, segurança e saúde no trabalho.
A formação combina aprendizagem com profissionais no ativo e uma abordagem orientada para a aplicação prática, procurando reforçar precisamente a capacidade de os profissionais de RH aumentarem a sua influência e impacto no negócio.
Num momento em que a tecnologia começa a conseguir desempenhar cada vez mais tarefas de suporte de RH, a diferenciação do HRBP estará provavelmente menos naquilo que sabe processar e cada vez mais naquilo que consegue compreender, questionar, decidir, influenciar e transformar.
E talvez seja essa, afinal, a verdadeira mensagem por detrás do alegado “fim” dos HR Business Partners.
Fontes
Josh Bersin
- Redesigning HR: An Operating System, Not An Operating Model, 1 de março de 2023.
- A New, Transformed Role For The HR Business Partner, 14 de junho de 2024.
- The End of HR As We Know It? AI Is Starting To Change Everything, 26 de abril de 2025.
- Yes, HR Organizations Will (Partially) Be Replaced by AI, And That’s Good, 16 de maio de 2025.
- The Great Reinvention of Human Resources Has Begun, 24 de janeiro de 2026.
- HR 2030: The Agentic HR Blueprint, Josh Bersin Company.
- Despite Massive AI Investments, HR Jobs Are Booming. Why?, 13 de agosto de 2026.
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