Até 2029, 30% dos profissionais despedidos devido à substituição por IA terão de ser recontratados, frequentemente a custos significativamente superiores, segundo uma previsão da Gartner. A estimativa faz parte uma análise publicada recentemente, na qual a consultora identifica quatro mudanças que deverão influenciar o futuro do trabalho.
A consultora identifica três consequências possíveis:
- Recrutamento mais dispendioso, devido à concorrência por profissionais com as competências procuradas;
- Aumento dos custos de formação e integração, quando as empresas tiverem de incorporar novos trabalhadores;
- Perda de conhecimento institucional, com a saída de profissionais que conhecem os processos e o funcionamento da organização.
Tori Paulman, Vice President Analyst da Gartner, considera que os responsáveis que utilizam a IA principalmente para reduzir custos arriscam eliminar postos de trabalho demasiado cedo e em número excessivo. Segundo a analista, estas decisões poderão limitar a capacidade das organizações para inovar os seus modelos de negócio e competir em novos mercados.
Em alternativa, a Gartner propõe uma estratégia de reorganização do talento, designada talent remix, que consiste em utilizar a IA para redefinir funções e transferir trabalhadores de atividades menos produtivas para outras oportunidades dentro das empresas.
Quatro mudanças que vão influenciar o futuro
Para a Gartner, a evolução da IA exige alterações que ultrapassam a adoção de ferramentas tecnológicas. A consultora identifica quatro áreas de transformação, relacionadas com a colaboração entre pessoas e IA, as competências profissionais, a preservação do conhecimento e a utilização dos ganhos de produtividade.
1- A IA passa a integrar o trabalho das equipas
A primeira mudança está relacionada com a evolução da IA para um instrumento de colaboração com os trabalhadores, apoiando a execução de tarefas e a tomada de decisões. A Gartner defende que as organizações devem utilizar a tecnologia para desenvolver capacidades humanas, mantendo a responsabilidade das pessoas pelos resultados e pelas decisões.
Entre as aplicações identificadas estão:
- Avatares digitais dos trabalhadores, que poderão apoiar a interação com sistemas de IA;
- Aplicações de acompanhamento e desenvolvimento profissional, destinadas a apoiar os trabalhadores nas suas atividades;
- “Gémeos” digitais dos trabalhadores, que permitem representar digitalmente determinados aspetos da sua atividade;
- Sistemas de IA capazes de analisar sinais emocionais, associados à interação entre pessoas e tecnologia.
Para a consultora, a utilização destas ferramentas deverá privilegiar o reforço da capacidade de análise, da criatividade, da liderança e da tomada de decisões.
2- As competências terão de acompanhar a transformação das funções
A segunda mudança diz respeito à preparação dos trabalhadores para um contexto de evolução tecnológica. A Gartner considera que a rapidez da transformação está a expor lacunas nas competências e na capacidade de adaptação das organizações. Por esse motivo, defende que as empresas devem investir não apenas na utilização de ferramentas de IA, mas também na capacidade de aprendizagem e na adaptação a novas responsabilidades.
A consultora identifica quatro prioridades:
- Literacia em IA, para compreender e utilizar a tecnologia no contexto profissional;
- Gestão de competências apoiada por IA, para acompanhar as necessidades das organizações;
- Destreza digital, que permita aos trabalhadores adaptar-se a novas ferramentas e formas de trabalhar;
- Preparação das lideranças, para que os responsáveis empresariais compreendam as aplicações e implicações da IA.
A colaboração entre diferentes áreas e a aprendizagem contínua são também apontadas como condições para acompanhar a evolução das funções.
3- A automatização aumenta a importância do conhecimento humano
A terceira mudança está relacionada com a preservação do conhecimento institucional. À medida que a IA passa a integrar mais processos empresariais, a Gartner identifica o risco de as organizações perderem contexto sobre a forma como determinadas atividades são realizadas e sobre as razões que sustentam as decisões.
A consultora defende que os sistemas devem preservar a supervisão humana e permitir que os trabalhadores compreendam tanto a execução dos processos como os critérios que lhes estão associados.
Neste domínio, identifica três grupos de tecnologias:
- Interfaces conversacionais, que permitem a interação com sistemas através de linguagem natural;
- Plataformas de apoio à decisão, destinadas a apoiar a análise de informação;
- Interfaces geradas por IA, que adaptam a apresentação e a utilização dos sistemas.
A Gartner considera que estas ferramentas podem contribuir para melhorar a qualidade das decisões e preservar a intervenção humana nos processos.
4- Os ganhos de produtividade podem ter outro destino
A quarta mudança diz respeito à utilização dos benefícios económicos proporcionados pela IA. Segundo uma previsão da Gartner, até 2027, 75% das organizações que privilegiarem a conversão dos ganhos de produtividade em poupanças de custos serão ultrapassadas por concorrentes que reinvistam esses benefícios em inovação, modernização e desenvolvimento de competências.
A consultora defende que as empresas devem criar condições para que cada nova aplicação de IA possa ser implementada de forma mais rápida, menos dispendiosa e mais segura do que a anterior. Entre as tecnologias associadas a esta transformação estão os dispositivos inteligentes com IA, os modelos generativos especializados, a inteligência artificial incorporada em sistemas físicos e o vibe coding, abordagem de desenvolvimento de software apoiada por IA.
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