Até 2030, metade das funções atualmente executadas pelos RH poderá ser automatizada ou executada por agentes de inteligência artificial (IA), segundo a Gartner. A consultora prevê ainda que a tecnologia apoie a totalidade das tarefas do cargo, colocando em causa a distribuição do trabalho, as responsabilidades e os modelos organizacionais existentes.
Face a este cenário, a Gartner deixa um aviso: os departamentos de RH terão de liderar a própria transformação. No artigo “Build an HR Operating Model That Succeeds in the AI Era“, Hanne Nieberg, Senior Director Analyst na área de RH da Gartner, são apresentados dois cenários possíveis: a reinvenção do modelo operacional, caso os RH assumam a mudança, ou a sua eventual dissolução enquanto função autónoma, se outras áreas da empresa assumirem esse protagonismo.

No final de 2025, 95% dos Diretores de Recursos Humanos (DRH) utilizavam IA, de acordo com a Gartner. Contudo, quase três quartos dos DRH reportam retornos moderados ou reduzidos dos investimentos realizados. No artigo, a consultora aponta uma explicação: a tecnologia representa apenas 30% do sucesso da transformação. Os restantes 70% dependem da capacidade das organizações para redesenhar processos, funções e formas de trabalhar.
A proposta da Gartner é, por isso, reinventar o modelo operacional dos RH, através de três mudanças.
1- Operações de RH passam a funcionar como serviços digitais
A primeira transformação incide sobre as atividades administrativas e de suporte. A Gartner prevê que os agentes de IA assumam grande parte das tarefas de autosserviço e atendimento de menor complexidade, tornando-se o primeiro ponto de contacto para trabalhadores e gestores. Em vez de dependerem de equipas administrativas para esclarecer dúvidas ou encaminhar pedidos, os utilizadores poderão recorrer a sistemas capazes de prestar serviços e antecipar determinadas necessidades.
Para concretizar esta mudança, a consultora identifica quatro prioridades:
- Melhorar a gestão dos dados, garantindo informação fiável para os sistemas de IA;
- Preparar a infraestrutura tecnológica para integrar ferramentas, gerir grandes volumes de dados e executar processos complexos;
- Normalizar os procedimentos de RH, tornando-os adequados à automatização e orientados para as necessidades dos utilizadores;
- Desenvolver novas competências nas equipas, nomeadamente na interação com IA, no planeamento de cenários e na criação de soluções digitais.
A Gartner apresenta duas possibilidades de organização: estruturas internas de serviços partilhados entre diferentes funções empresariais e modelos de prestação externa através de fornecedores especializados. A primeira permite manter internamente a gestão dos serviços e um maior acompanhamento da experiência dos trabalhadores. Já a segunda transfere para fornecedores externos a prestação dos serviços e parte dos custos e riscos associados à implementação da IA.
Em ambos os casos, o objetivo é transformar as operações administrativas numa estrutura de prestação de soluções digitais, apoiada por tecnologia e por profissionais capazes de resolver problemas mais complexos.
2- HR Business Partners podem passar a acompanhar até 1200 trabalhadores
A segunda mudança atinge o modelo de HR Business Partner (HRBP), tradicionalmente organizado em torno de profissionais que acompanham determinadas unidades de negócio ou grupos de gestores. A Gartner sugere a criação de equipas flexíveis de Strategic Talent Leaders, ou líderes estratégicos de talento, mobilizadas de acordo com as necessidades das diferentes áreas.
Neste modelo, os agentes de IA tornam-se o primeiro ponto de contacto para muitos gestores intermédios e operacionais, resolvendo questões correntes e encaminhando os casos mais complexos para especialistas humanos. Os gestores de topo continuam a ter acesso direto a profissionais estratégicos, preservando relações consideradas essenciais para o negócio.
A mudança poderá permitir um aumento significativo do número de trabalhadores acompanhados por cada HRBP. Como adianta a Gartner, o rácio atual de um profissional por 423 trabalhadores poderá passar para um por 800 a 1200, num horizonte de um a cinco anos, dependendo do setor.
Para sustentar esta evolução, a consultora recomenda:
- Disponibilizar aos HRBP ferramentas de IA com informação atualizada sobre talento e negócio;
- Reforçar o aconselhamento estratégico às lideranças sobre a dimensão humana das organizações orientadas para a IA;
- Desenvolver competências de análise crítica, incluindo a capacidade de identificar erros, respostas incorretas e enviesamentos dos sistemas.
O objetivo é libertar os HRBP das solicitações mais rotineiras e concentrar a sua intervenção em decisões estratégicas sobre pessoas. As questões operacionais relacionadas com os trabalhadores continuariam a ser asseguradas pelas operações de RH.
3- Centros de excelência tornam-se criadores de soluções personalizadas
A terceira transformação diz respeito aos centros de excelência, habitualmente organizados por especialidades como recrutamento, remuneração, aprendizagem ou desenvolvimento de talento. A Gartner recomenda que estas estruturas evoluam para equipas de desenvolvimento de produtos e soluções de RH, articulando diferentes especialidades em torno das necessidades do negócio e dos trabalhadores. Em vez de cada área desenvolver isoladamente as suas políticas, os especialistas passariam a colaborar através de value streams, ou fluxos de criação de valor.
O artigo apresenta três exemplos:
- Atrair trabalhadores: integrar planeamento da força de trabalho, proposta de valor ao trabalhador, marca empregadora e compensação;
- Reter talento: combinar progressão de carreira, aprendizagem, sucessão, bem-estar, remuneração e benefícios;
- Melhorar o desempenho dos RH: articular estratégia, transformação, inovação, eficiência operacional e gestão de recursos.
A utilização de dados em tempo real e de ferramentas de IA poderá permitir respostas mais personalizadas, substituindo parte dos programas uniformes por soluções ajustadas a diferentes necessidades. Para isso, a Gartner recomenda reorganizar o trabalho dos centros de excelência em produtos, avaliar os recursos necessários e desenvolver competências de pensamento crítico, inovação, gestão de produto e colaboração.
Metade das tarefas automatizadas significa metade dos profissionais?
Apesar de tudo isto, a previsão da Gartner não quer dizer que vá ocorrer uma redução de 50% dos postos de trabalho nos departamentos de Rh. A consultora distingue entre atividades que poderão ser executadas autonomamente pela IA e tarefas em que a tecnologia servirá de apoio aos profissionais.
O artigo não apresenta uma estimativa global de eliminação de empregos, mas antecipa uma redistribuição significativa do trabalho. Ou seja, enquanto os agentes de IA assumem atividades administrativas e solicitações correntes, os profissionais humanos deverão concentrar-se no aconselhamento estratégico, na resolução de problemas complexos, na análise crítica e nas relações humanas.
Esta mudança exigirá também novas competências, particularmente na avaliação da informação produzida pela IA, na identificação de enviesamentos, na inovação e na colaboração entre equipas. A questão não é apenas quantas tarefas poderão ser automatizadas, mas como será redefinido o contributo dos profissionais de RH.
O plano de ação dos DRH
A Gartner considera que a preparação deve começar antes de todas as tecnologias estarem plenamente maduras. De acordo com a consultora, 82% dos DRH planeiam implementar agentes de IA num prazo de um ano.
Para orientar a transformação, identifica quatro prioridades:
- Redefinir a proposta de valor dos RH: trabalhar com a gestão de topo para identificar onde a função pode criar maior impacto estratégico;
- Criar uma equipa de inovação: estabelecer uma estrutura com reporte ao CHRO, capaz de desenvolver a agenda de IA em articulação com as tecnologias de informação;
- Desenvolver um plano de transformação: identificar o que pode ser automatizado, onde o julgamento humano continua a ser essencial e como deverão evoluir as funções;
- Envolver os profissionais: comunicar de forma transparente, promover a participação das equipas e investir no desenvolvimento de competências.
A recomendação é começar com projetos-piloto em áreas controladas e alargar progressivamente a utilização da IA, em função dos resultados e da preparação da organização.
E o organigrama?
A Gartner não propõe apenas que os RH utilizem mais IA. Defende uma mudança na forma como os departamentos prestam serviços, acompanham as lideranças e desenvolvem soluções para os trabalhadores.
A previsão para 2030 continua a ser um cenário prospetivo, dependente da evolução tecnológica e da capacidade de transformação das organizações, mas a consultora considera que os DRH devem começar desde já a repensar o propósito, a estrutura e o impacto da função.
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI






























