A filosofia Agile é uma ferramenta estratégica de gestão que visa aumentar a produtividade e as perspetivas de sucesso, assegurando, assim, a competitividade das empresas. A sua metodologia foi projetada, inicialmente, para a indústria de software, mas rapidamente se estendeu a outras vertentes organizacionais.
Esta solução de natureza colaborativa veio alterar a forma como as organizações gerem os projetos e operam como um todo, oferecendo uma maior flexibilidade, produtividade e transparência e aumentando o engagement e a satisfação das partes interessadas.
O objetivo é a implementação de soluções de forma mais rápida, a união de esforços com vista ao sucesso, a conquista de tempos de resposta mais curtos e a otimização de processos. Tudo isto, através de uma estrutura organizacional que se pretende leve, ágil, colaborativa e focada nas necessidades específicas do cliente.
Em entrevista à RHmagazine, Hugo Lourenço, fundador do World Management Agility Forum e The Agile Thinkers, explicou: “A filosofia Agile é como uma árvore robusta num ecossistema em constante evolução. As suas raízes – a adaptabilidade, o crescimento contínuo e a colaboração – oferecem o suporte necessário para prosperar em ambientes voláteis e imprevisíveis. Ao valorizar o feedback contínuo e a colaboração eficaz, o Agile incentiva uma cultura onde a inovação floresce organicamente.”
Já Cátia Oliveira, Head of People Management da Askblue, uma empresa Agile que presta serviços de consultoria especializada no setor financeiro e no domínio das tecnologias de informação, também em entrevista à RHmagazine, garantiu: “Uma empresa Agile adapta-se continuamente a alterações do contexto competitivo onde se insere.”
“Uma empresa Agile adapta-se continuamente a alterações do contexto competitivo onde se insere.”
Cátia Oliveira, Head of People Management da Askblue
A Head of People Management clarificou, ainda, os princípios orientadores desta ferramenta estratégica:
- Aceitação de mudanças em qualquer fase do projeto;
- Envolvimento dos vários stakeholders (clientes, gestores, programadores, fornecedores, etc.) na procura pela solução;
- Formação de equipas multidisciplinares, que se reúnem diariamente nos daily scrums (com duração máxima de 15 a 20 minutos), evitando a perda de tempo em reuniões;
- Divisão dos problemas complexos em várias tarefas mais pequenas, que idealmente devem ser concluídas em duas a três semanas (conceito de sprint);
- Início do projeto com um MVP (Minimum Viable Product), ao qual se vão adicionando funcionalidades, tendo em consideração as necessidades do negócio.
Hugo Lourenço reuniu as principais metodologias Agile: “Scrum e Kanban são frequentemente os primeiros passos para as equipas, enquanto modelos como LeSS (Large Scale Scrum), ou Scrum@Scale são projetados para a adaptação em larga escala. Estas ferramentas funcionam como diferentes instrumentos numa orquestra, cada uma desempenhando um papel específico na sinfonia empresarial.”
“Contudo, a verdadeira harmonia só é alcançada quando a escolha da ferramenta se alinha perfeitamente às necessidades e ao contexto único da empresa. Infelizmente, muitas organizações do tecido empresarial optam por implementar as frameworks e trazem coaches externos de forma rígida, para obrigar a fazer como se diz. Sem permitir uma aprendizagem orgânica e natural, esta abordagem sufoca a agilidade e dificulta uma adaptação genuína dos princípios Agile.”, acrescentou.
Para Rui Afeiteira, Knowledge & Innovation Lead na BI4ALL, uma empresa Agile deve evoluir “a par com as tendências tecnológicas e de negócios de forma incremental”, de maneira a alcançar o máximo valor não só para o negócio, mas também para a empresa e para as suas pessoas.
Uma empresa Agile deve evoluir “a par com as tendências tecnológicas e de negócios de forma incremental”
Rui Afeiteira, Knowledge & Innovation Lead na BI4ALL
Através desta ferramenta, e de acordo com o responsável entrevistado pela RHmagazine, é fomentada uma cultura de inovação, aprendizagem e maturidade e criado um espaço para as pessoas aprenderem, crescerem, ganharem mais autonomia, visão e capacidade de colaboração, mas também errarem.
Já para José Chéu, Board Member, Operations & Delivery da Abaco Consulting, uma empresa Agile é, acima de tudo, um mindset, conforme partilhado na entrevista à RHmagazine: “É uma forma de estar no mercado para melhorar a experiência dos nossos clientes e, internamente, no modo como operamos, nos alinharmos e nos tornarmos ágeis para o nosso principal compromisso – criar valor para os clientes.”
“É uma forma de estar no mercado para melhorar a experiência dos nossos clientes”
José Chéu, Board Member, Operations & Delivery da Abaco Consulting
Hugo Lourenço mencionou os principais benefícios da adoção da filosofia Agile pelas empresas: “Adotar é sempre mais benéfico do que simplesmente implementar o Agile. Agile transforma desafios em oportunidades, permitindo que as organizações se adaptem rapidamente ao mercado.”
“Esta capacidade de adaptação não só atende melhor às demandas do momento, como prepara a organização para o futuro, garantindo que esta antecipa e lidera as mudanças. Criar essa capacidade cognitiva nas pessoas é extremamente difícil. Nas 20 maiores empresas do mundo, responsáveis por 80% do market cap global, o Agile já é essencial.”, continuou.
Acrescentou, ainda: “Ser Agile significa ter uma curiosidade constante sobre como melhor servir os clientes, enquanto os colaboradores aprendem uns com os outros, promovendo uma cultura de evolução que evita distrações e mantém o foco nos objetivos principais. O segredo está em crescer conforme a demanda, sem dar passos maiores que a perna, mas com a capacidade de responder no momento certo.”
“O segredo está em crescer conforme a demanda”
Hugo Lourenço, fundador do World Management Agility Forum e The Agile Thinkers
Sobre os desafios associados, Hugo Lourenço apontou: “Os maiores desafios na adoção da filosofia Agile são, em grande parte, de natureza comportamental e cultural. Muitas empresas enfrentam resistência à mudança, especialmente em ambientes que favorecem práticas tradicionais e rígidas, nos quais estruturas hierárquicas bastante vincadas dificultam a tomada de decisões ágeis e descentralizadas.”
Quanto à área de RH propriamente dita, o fundador do World Management Agility Forum e The Agile Thinkers esclareceu: “Na gestão de RH, a agilidade tem se traduzido por meio da descentralização e da criação de processos mais dinâmicos e participativos. Em vez de se optar por uma abordagem rígida e centralizada, as práticas de RH evoluíram de forma a incluir feedbacks constantes, avaliações de desempenho contínuas e políticas de desenvolvimento flexíveis.”
“Ser ágil nos RH não melhora apenas a satisfação e o compromisso dos colaboradores, mas também fortalece e eleva a capacidade da empresa de atrair e desenvolver talentos. Na atualidade dos contextos de trabalho, o alinhamento entre as capacidades internas e as expectativas dos clientes é crucial, pelo que a agilidade ajuda a criar processos mais flexíveis e reativos, adequados às necessidades atuais e futuras da força de trabalho.”, salientou.
Acrescentou: “A adoção do Agile na gestão de RH humaniza a abordagem, colocando as pessoas no centro das estratégias empresariais. Isto promove um ambiente de respeito mútuo e clareza nos objetivos, ajudando a que todos compreendam o seu papel e contribuição para o sucesso da empresa. Em vez de depender exclusivamente de hierarquias rígidas, o Agile incentiva a participação ativa e a colaboração, moldando comportamentos e promovendo uma cultura onde a criatividade e a curiosidade são valorizadas.”
Segundo Hugo Lourenço, a filosofia Agile também pode contribuir para a retenção do talento: “Promove uma cultura de transparência, respeito e desafios constantes. Os colaboradores são vistos como parte essencial do sucesso da empresa, o que aumenta o sentimento de valorização e compromisso. Ademais, incentiva a comunicação aberta, permitindo que problemas sejam resolvidos rapidamente. Este respeito pelo bem-estar dos colaboradores, aliado à ausência de medo de represálias, cria um ambiente positivo e estimulante.”