Pedro Ramos
Diretor de recursos humanos do Grupo TAP Air Portugal
Antes de mais uma declaração de princípio: Não sou agricultor, a minha mãe não me vai ajudar a escolher noiva e nem muito menos estou casadouro… Apenas gosto de estórias, de contar e ouvir estórias e tenho a certeza que contar e ouvir estórias tem um impacto brutal nos processos de aprendizagem individual e organizacional…
Por isso, eu e o meu amigo José Bancaleiro (que dispensa apresentações!) desafiámos dezenas de gestores de pessoas “da nossa praça” a contarem as suas estórias mais ou menos vividas na primeira pessoa e que, no início e no final do dia, correspondem a uma multiplicidade de aprendizagens em contextos diversos. Tudo ficou finalmente reunido na obra Conta-me Estórias – Storytelling na Gestão de Pessoas da Editora RH.
Já sabíamos o enorme poder que o storytelling tem sobre o cérebro humano, bem mais do que quando se utiliza outra forma de lhe enviar informações, tendo em vista a assimilação de determinadas mensagens. Já sabíamos, mas confirmámos que desta forma é bem possível, em diversos contextos organizacionais, produzir mensagens poderosas, tendo em vista causar fortes emoções e consequentes aprendizagens.
Existem, por isso, vários estudos que relacionam o chamado storytelling e o sucesso dos processos de aprendizagem, assentes numa espécie de sincronização entre as pessoas que contam as estórias e as pessoas que as ouvem e participam nelas. Tais estudos têm procurado demonstrar que as aprendizagens decorrentes das estórias contadas resultam em aprendizagens mais variadas, mais efetivas e mais duradouras no tempo.
Isto ocorre principalmente porque as estórias têm uma estruturação simples, usualmente numa lógica de causa-efeito, sendo que é dessa forma que, na maior parte dos casos, estruturamos o nosso pensamento. Logo, numa lógica natural, emocional e lúdica, as estórias usualmente fazem-nos utilizar ativamente a nossa memória, dado que estimulam várias relações com experiências anteriores.
As estórias têm ação, personagens e muita reflexão. As personagens podem ser reais ou fictícias, mas sempre importantes, pois “convidam” os ouvintes a encarnarem-nas. Logo, os ouvintes são, também eles, personagens destas mesmas estórias.
A ação pode ter uma sequência de momentos, factos, ocorrências, mas sempre com o objetivo de prender o ouvinte à sucessão de momentos e com crescente desejo de conhecer o “grande final”! Como se de uma encenação teatral ou de um filme se tratasse! E depois, o que dizer na reflexão final? A moral da estória? A conclusão maior que no fundo pretende justificar por que aquela estória foi importante naquele momento e naquele contexto concreto e que convida à mobilização de mais experiências, reflexões interiores, integração de “peças” anteriores de aprendizagem individual e organizacional.
Há, desta forma, um potencial enorme por parte dos gestores de pessoas enquanto “Contadores de Estórias”… Há muito que sabemos, por exemplo, que os líderes que consideramos mais eficazes e de sucesso são-no porque conseguem mobilizar as suas equipas entusiasmando-as com as suas estórias, das mais simples às mais complexas, fazendo-as refletir sobre as suas ações, corrigindo os comportamentos errantes e estimulando a motivação e o engagement dos seus colaboradores.
Os melhores contadores de estórias têm o poder de despertar emoções e potenciar a forte adesão e mobilização das pessoas às suas ideias e aos seus projetos. Obviamente, estamos a falar de aspetos relacionados com a comunicação de grupos, mas também dos aspetos relacionados com os contextos e processos pedagógicos, não esquecendo o desenvolvimento das pessoas nos contextos organizacionais.
As estórias não têm de ser necessariamente atuais ou contemporâneas. Estórias com maior “antiguidade”, vividas ou descritas e enquadradas em contextos longínquos, já bastante anteriores no tempo, podem constituir-se peças bem eficazes de aprendizagens bem atuais.
Um certo distanciamento (ou até um elevado distanciamento) entre o tempo e o contexto da estória, bem como das suas personagens, podem ser favoráveis à reflexão necessária por parte do interlocutor ou interlocutores e a uma positiva integração nos atuais contextos organizacionais.
O tempo pode ser, também neste caso, um “grande conselheiro”! O tempo das estórias nem sempre é o tempo das reflexões e das aprendizagens… O tempo pode ser exatamente um fator determinante numa abordagem mais madura e integrada de determinados comportamentos, atitudes e ações exemplares que importa percecionar e integrar.
O ideal é, contudo, intercalar boas estórias com bons conteúdos bem trabalhados, preparados e altamente direcionados para os interlocutores em causa. Os seus ouvintes vão sentir a diferença!
A oportunidade da estória, sobretudo assente na oportunidade das suas personagens e das suas vivências e experiências positivas ou negativas, está fatalmente relacionada com o sucesso da utilização destas na comunicação dos grupos e na relação destes com os constructos de aprendizagem pessoal e organizacional.
No storytelling, mais importante do que a caracterização das personagens – boas ou más –, são os processos de integração destas nas narrativas criadas em torno dos desafios apresentados de apropriação e aprendizagens.
Não nos podemos esquecer que o storytelling bem conseguido envolve uma sintonia e identificação dos ouvintes com as personagens, sejam estas pessoas (supostamente) reais ou criaturas ficcionadas. Quanto mais o ouvinte se identificar com as personagens da estória, mais efetivo será o processo pedagógico de transferência da aprendizagem.
O storytelling é profundamente emocional. Se uma estória não for suficientemente forte e envolvente, não contribuirá eficazmente como estratégia de comunicação e mobilização.
Uma estória bem contada facilmente se transforma num conjunto de ideias compartilháveis. Uma estória bem aceite pelo público ao qual se destina será profundamente compartilhada, em vários momentos diferentes, de forma a que a mensagem por detrás da mesma se vai propagando e atingindo cada vez mais interlocutores próximos.
E, afinal, o que isto tudo tem a ver com a “estória da Carochinha”? A resposta é que, no caso da Carochinha, apesar dos múltiplos pretendentes que foram aparecendo e propondo-se ao casamento, foi a própria “da” Carochinha que escolheu o seu noivo. Não foi a mãe, nem um tal de um agricultor com vontade de ficar famoso na TV…
Ou seja, às vezes (tantas vezes!) nem sempre os finais são os mais esperados, nem sempre a moral da estória (aprendizagem) está ali à “mão de semear” ou é desde logo evidente, nem sempre as personagens adotam os comportamentos mais aclamados…
Como, no caso da Carochinha, em que é ela quem define os pré-requisitos do desejado noivo e seleciona o melhor candidato, também cabe aos gestores de pessoas “contadores de estórias” selecionarem as melhores estórias tendo em vista produzirem os maiores impactos de aprendizagem!
Muitas & Boas Estórias para todos!
(e que, no fim do dia, a Carochinha escolha sempre o melhor!)