Comprometida com o propósito de ajudar a transformar Portugal numa sociedade de conhecimento através da Educação e do desenvolvimento pessoal, a Fundação José Neves (FJN) publicou em 2021 o “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal”. O seu presidente, Carlos Oliveira, falou-nos deste relatório e do que é importante fazer para que da ligação entre estas três áreas surjam melhores resultados no futuro.
A Fundação José Neves (FJN) lançou, em 2021, a primeira edição do “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal”. Que resultados destaca?
O “Estado da Nação” foi uma necessidade que nós encontramos de perceber a evolução da Educação em Portugal, desde o início do século XX até aos dias de hoje, analisando os pontos em que fizemos bons progressos e aqueles onde é fundamental atuar. Quando lançamos este relatório, definimos um conjunto de metas que achamos que o país deve alcançar em 2040, para que possamos sair da realidade penosa na qual nos encontramos, apesar do progresso positivo.
Cerca de 48% dos portugueses adultos não terminaram o ensino secundário; por sua vez, temos 46% dos empregadores que concluíram, no máximo, o ensino secundário. O “Estado da Nação” mostra também que existe um gap inter-geracional muito grande – uma nova geração muito qualificada, por um lado, e uma população
adulta com um grave défice de qualificações, por outro. Há, ainda, mais de 20% de recém-licenciados que, ao fim de três anos, mantêm-se desempregados, o que demonstra um desalinhamento entre as qualificações e aquilo que o mercado de trabalho procura. A este valor acresce 15% de jovens recém-licenciados que chegam ao mercado de trabalho e estão a desempenhar funções que não exigem este nível de ensino.
Cerca de 48% dos portugueses adultos não terminaram o ensino secundário
Perante estes e outros resultados, sentimos uma enorme necessidade de alinhar a oferta educativa e de formação ao longo da vida com aquelas que são as necessidades do país. Acreditamos que é necessário que em todas as áreas de Educação exista formação de curta duração, de alguns meses, orientada para as competências, em que o esperado não é os indivíduos terem notas altas, mas ganharem ou desenvolverem competências que lhes permitam melhorar ou até alterar a sua carreira. É preciso que o sistema acelere, porque a mudança a que assistimos hoje é muito elevada e não é compatível com, por exemplo, uma universidade lançar um curso que demora entre um ano e meio e dois anos a obter aprovação e em que só dali a três é que sairão as primeiras pessoas para o mercado de trabalho – ciclos que podem ir de quatro anos a sete anos e meio, se se incluir os mestrados.
Mais de 20% de recém-licenciados mantêm-se desempregados, ao fim de três anos após o término do curso
No relatório verificou-se ainda que os adultos mais escolarizados são aqueles que mais participam em formação ao longo da vida. Na sua opinião, o que é que justifica esta tendência?
As pessoas mais qualificadas já perceberam as vantagens da Educação e, portanto, é-lhes mais fácil perceber porque é que têm de continuar a desenvolver competências ao longo da vida. Já as pessoas com menores qualificações não têm esta perceção, porque já passaram por essa realidade há muito tempo, acham que não vão ter nenhuma vantagem ou que a formação é para aqueles que já estudaram muito. Muitas vezes, o problema também é as pessoas associarem a formação ao longo da vida a terem de ir para os bancos da escola e não é necessariamente isso, poderá ser uma formação profissional ou menos formal, como os bootcamps ou os tais programas de curta duração – que muito defendemos – orientados para as competências. E quando falamos em competências, referimo-nos não só às vulgarmente designadas hard skills, mais técnicas, mas também às competências socioemocionais, que são muito importantes. Cada vez mais é fundamental deter essas competências, como as de comunicação, trabalho em equipa e pensamento lógico, pois a grande diferenciação das pessoas vai estar na forma como abraçam os seus desafios pessoais, sociais e laborais com essas competências socioemocionais.
É cada vez maior o número de profissões tecnológicas e de universidades a oferecerem cursos voltados para a tecnologia… É suficiente ou é preciso investir ainda mais nesta área?
Acho que precisamos de investir mais em currículos transversais. Às vezes, usa-se “tecnologia” e “digital” como sinónimos e, na minha perspetiva, não o são. Uma coisa é eu poder desenvolver competências para trabalhar no mundo digital e poder tirar partido das ferramentas digitais, outra coisa são as vertentes mais tecnológicas de quem vai construir essas ferramentas, de quem vai desenvolver e programar e, neste caso, há uma oferta que tem aumentado, mas que é claramente insuficiente face às enormes necessidades que existem no mercado. Se estamos a viver uma falha instantânea de recursos, não é apenas com licenciaturas e mestrados em Engenharia que esta se vai resolver; precisamos de soluções de requalificação.
A grande diferenciação das pessoas está na forma como estas abraçam os seus desafios pessoais, sociais e laborais com as suas competências socioemocionais
Existindo pouca formação específica a este nível, como é que as pessoas se podem preparar para o futuro? Como é que um profissional pode fazer um reskilling nesta área?
Aquilo que nós defendemos muito na FJN é a necessidade da tal criação de formação de curta duração, não só para gerarmos programadores e engenheiros, mas precisamos também de incorporar conhecimentos mais transversais, desde a Medicina, passando pelo Direito até ao Turismo. Acho que a oportunidade passa mesmo pela formação mais orientada às competências, em que aquilo que se mede no fim não é se determinada pessoa tirou uma boa, média ou má nota, mas se adquiriu competências e conhecimentos que a vão ajudar a ter maior potencial de empregabilidade e um emprego melhor remunerado.
“Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal” – As metas para 2040
- 15% dos adultos com baixa escolaridade (uma diminuição de 33 pontos percentuais face ao valor em 2019 de 47,8%)
- 5% dos jovens adultos com baixa escolaridade (uma diminuição de 20 pontos percentuais face ao valor em 2019 de 24,8%)
- 45% dos adultos com o ensino superior (um aumento de 19 pontos percentuais face ao valor em 2019 de 26,3%)
- 60% dos jovens adultos com o ensino superior (um aumento de 23 pontos percentuais face ao valor em 2019 de 37,4%)
- 25% de adultos a participarem em ações de formação ao longo da vida (um aumento de 15 pontos percentuais face a valor em 2019 de 10,5%).
- 90% dos jovens recém-licenciados empregados (um aumento de 13 pontos percentuais face ao valor em 2019 de 77,5%)
- Portugal no ‘top 10’ dos países com mais emprego em tecnologia e conhecimento (no ranking de 2019, o nosso país ocupava a 19.ª posição a nível europeu, o que se traduz numa melhoria de nove pontos)
A crescente digitalização levará a que muitas categorias de colaboradores desapareçam. Para que as empresas não despeçam esses trabalhadores, como é que os podem ajudar a fazer a transição para outras funções?
Não sou nada catastrofista. Há uma destruição de emprego que já houve noutros ciclos, noutras revoluções, que leva à criação de novos empregos noutras áreas. Portanto, não acho que esse seja o problema. O problema é o
da requalificação das pessoas e de se lhes dar instrumentos, a oferta necessária para que possam transitar para novas carreiras, novas profissões, ou subir naquelas onde estão. Quando olhamos para uma população portuguesa onde 48% da força de trabalho dos adultos não terminou o ensino secundário, obviamente têm de ser pensadas soluções de competências e de transições de carreira e requalificações muito pragmáticas. Muitas vezes, o erro de pensamento dos empregadores é “estou a cumprir a lei que me diz que tenho de dar ‘x’ horas de formação por ano a cada funcionário, portanto, desde que eles façam alguma coisa, o meu papel está feito”. E não está. O importante não são as horas, mas sim o impacto, os outputs dessa formação.
A somar às bolsas reembolsáveis ISA FJN e à plataforma Brighter Future, a FJN lançou a app 29K FJN voltada para o bem-estar e saúde mental dos portugueses. Em que consiste esta solução?
As questões do bem-estar, do autoconhecimento, do desenvolvimento pessoal são um dos pilares fundamentais da Fundação. São temas muito pouco falados no país e, quando falados, são muitas vezes associados a realidades esotéricas, espirituais, e não é nada disso de que se trata. É uma aplicação baseada em ciência e validada cientificamente, gratuita e com conteúdos totalmente em português. Neste momento, temos mais de 18.000 portugueses a usar a aplicação. Tem cursos, meditações, exercícios, testes e o objetivo é ajudarmos um maior número de portugueses a tomar consciência da importância do autoconhecimento e de como ferramentas muito simples podem impactar positivamente no seu bem-estar e saúde mental, evitando que se chegue à necessidade médica. A consciencialização para estes assuntos poderá ajudar a que deixemos de ser um dos países que mais consome ansiolíticos na Europa e a que as doenças de saúde mental deixem de ocupar o segundo maior registo, a seguir às doenças cardiovasculares.
A seu ver, qual será o futuro da Educação em Portugal?
Portugal fez uma evolução muito positiva e tem uma boa Educação de base. Mas o mundo está a evoluir a uma velocidade que não é compatível com aquelas que foram as práticas das últimas décadas, em que o mundo era mais lento. Para podermos estar preparados para este futuro, com uma evolução muito rápida do mercado de trabalho e com novas profissões a serem criadas, temos de acelerar também a evolução do nosso sistema educativo. Para atingirmos os objetivos que a Fundação lançou para 2040, o país tem de se mexer e é aí que esperamos dar a nossa pequena ajuda.
Entrevista publicada na edição n.º 139 da RHmagazine, referente aos meses de março/abril de 2022.
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