Autor: Mário Ceitil, Docente Universitário e Presidente da APG – Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas
Q
uem estiver atento aos inúmeros debates exibidos em vários canais de televisão, presenciará um fenómeno muito frequente, caracterizado pelo (ab)uso que vários intervenientes fazem da expressão “por uma razão muito simples”, quando argumentam o seu ponto de vista por contraponto (ou oposição) ao ponto de vista do outro.
Essa expressão, usada pelos interlocutores quando pretendem esgrimir as suas ideias sobre um determinado tema ou assunto, encerra em si mesma um conteúdo paradoxal: embora possa ser proferida sem acrimónia evidente e até com entoações mais ou menos “melodiosas”, ela traduz-se, na prática, numa atitude de não abertura ou até de flagrante desqualificação das opiniões alheias.
Vejamos: ao afirmar perante outro uma opinião formulada através da expressão “por uma razão muito simples”, quem o faz não está só a sugerir que a sua razão é mais razoável do que a razão do outro, mas, e o que é mais delicado, a insinuar uma subtil desqualificação do outro por não ter entendido uma coisa que, afinal, se resume a uma conclusão tão simples. Todavia, a pergunta coloca-se: se é assim tão simples, como é que só um é que lá conseguiu chegar?
Mas situações deste tipo não ocorrem apenas nos debates televisivos ou nas análises dos comentadores da política nacional.
Esta é também uma realidade evidenciada em algumas práticas de liderança, onde certos líderes usam expressões como esta, ou do mesmo género, como artifício semântico para camuflar uma atitude de minimização dos contributos alheios, seja dos seus colaboradores mais diretos, seja mesmo dos seus “peers”, com quem seria suposto desenvolver relações de cooperação e de sinergia.
Ora, como nos ensinam as ciências cognitivas, a linguagem tem uma conexão estreita com a mente, pelo que podemos perceber aquilo que uma pessoa pensa (pelo menos em parte) através dos vocábulos, expressões e imagens que usa. Quanto mais frequentes forem determinadas expressões verbais de uma pessoa, mais facilmente podemos perceber aquilo que pensa e até, de certo modo, antecipar possíveis ações que essa pessoa tenderá a realizar. Neste sentido, é possível supor, sem excessos de fantasia, que uma pessoa que utiliza recorrentemente formulações de juízos baseados nas tais “razões muito simples” tem, algures no seu cérebro, a ideia de que só ela é que tem razão, ou, o que vai dar ao mesmo, que a “verdade” está toda do seu lado. Portanto, quem assim fala, é porque assim pensa, e quem assim pensa considera-se provavelmente mais esperto do que os outros, esquecendo-se de que as outras pessoas também têm razões igualmente “simples” para pensarem como pensam.
É justamente devido às possíveis viciações, ou simples imprecisões, da semântica das palavras, que as ciências sociais têm desenvolvido amplos estudos sobre as conotações das mesmas, e também dos gestos e dos possíveis impactos que ambos têm nos relacionamentos humanos. Esses estudos têm fornecido um extenso material para aplicações práticas que têm sido utilizadas de forma generalizada como ferramentas essenciais para a chamada “formação comportamental” e para o treino de técnicas de liderança que ajudem os líderes a melhor comunicarem com as suas equipas.
E hoje, em ambientes organizacionais cada vez mais apostados em promover melhores relacionamentos a vários níveis, seja nas interações nas equipas, seja nos contextos de liderança, seja nos relacionamentos com clientes, já são notórias algumas diferenças sensíveis, tanto nas expressões utilizadas, como nas atitudes e gestos dos diferentes interlocutores, sempre orientadas no sentido de facilitar um melhor entendimento entre as pessoas e afinar com maior precisão algumas ferramentas de comunicação que procuram evitar possíveis conotações com práticas de autoritarismo, prepotência, atitudes persecutórias ou ações punitivas.
Prova disto são, por exemplo, as subtilezas da substituição da expressão “pontos fracos” para “aspetos a melhorar” nos processos de avaliação do desempenho e as notórias inflexões semânticas na comunicação interpessoal onde, também por exemplo, se substituem expressões como “eu acho que” por “na minha opinião”, “no meu ponto de vista”, ou “na minha experiência” e a progressiva erosão da velha exclamação interrogativa “entendem?” pela mais “democrática” “fiz-me entender?”. Esta última, embora de conotação menos diretiva, é por vezes usada acoplada a uma expressão fisionómica e a uma entoação verbal algo ameaçadoras, que levam as pessoas alvo a sentirem algum desconforto e até, em situações mais tensas, uma certa compulsão para exclamarem pressurosamente que “sim”…mesmo que realmente tenham uma grande vontade de dizer “não”.
Esta democraticidade expressiva penetrou tanto nos modos de ação dos nossos atores organizacionais que já vai sendo (felizmente) difícil encontrar pessoas, sobretudo responsáveis, que ainda usem, pelo menos em contexto público, as tais expressões “menos próprias”. Mas é preciso ter cautela: na verdade, ainda há muitos que usam um trato mais aberto e mais conforme com a atual main stream, mas apenas aparentemente, porque no “fundo do seu fundo” ainda subsistem alguns vestígios dos velhos modos de ser e de pensar tradicionais. São pessoas que podem, por exemplo, falar de “aspetos a melhorar”, quando nos recônditos da sua mente ainda pensam “seus incompetentes!”, ou podem esforçar-se por dizer “fiz-me entender?”, quando o que realmente pensam é que os seus interlocutores são uns “cretinos”.
Quanto àqueles que esgrimem as “razões muito simples”, esquecem-se (ou talvez não) de que um argumento só é simples para quem o pensa, pelo que é natural existir uma grande variabilidade na forma como cada um constrói a sua própria ideia de simplicidade.
Por isso, esta questão do que é ou não é simples, encerra, na verdade, uma grande complexidade, que decorre das dificuldades inerentes à permuta de significados na interação humana. Essas dificuldades só poderão ser superadas quando tivermos a humildade de considerar os outros como possíveis alternativas legítimas àquilo que nós somos e não como meros instrumentos das determinações e vontades dos nossos “egos”.
Portanto, se a nossa comunicação com os outros for pautada por princípios de interdependência e de sinergia e se quisermos realmente partilhar significados de forma a gerar um melhor entendimento e construir pontes para possíveis consensos ou verdadeiras negociações win-win, talvez seja melhor clarificar, para nós mesmos, as nossas verdadeiras intenções e começarmos por treinar a nossa capacidade para, honestamente, “deixar o nosso ego à porta“.
Prof. Mário Ceitil, é sempre um gosto ler crónicas suas. Muitos parabéns!