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Crónica: A inabalável solidez das competências “soft” por Mário Ceitil

IIRH Por IIRH
10 de Dezembro, 2025
em CRÓNICA
2
Crónica: 2025 – O Ano de Todos os Perigos – por Mário Ceitil, Assembleia Geral da APG
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Nunca, como agora, a reflexão sobre a importância das, ainda designadas, “soft skills” foi tão oportuna e tão premente.

Numa altura em que as competências técnicas dos humanos são cada vez mais substituídas por máquinas inteligentes, que geram produtos sofisticados cuja materialidade difusa lhes permite “chegar onde não chegamos e caber onde não cabemos”, a chave do sucesso, em qualquer área de atividade, reside cada vez mais na capacidade humana de inventar, de agregar, de construir a partir do difuso e,
sobretudo, de singrar no meio do absurdo e do caos endémico da sociedade atual.

Este tipo de competências, caracterizadas por terem uma muito maior complexidade cognitiva, são, pela sua fluidez e imaterialidade, difíceis de desenvolver por pessoas habituadas ao conforto das pequenas e grandes certezas que têm constituído os alicerces dos seus horizontes de vida e, sobretudo, por aquelas que, no fundamental, ainda se deixam levar pela convicção equívoca de que a rotina é, para si, a mais sólida garantia de uma empregabilidade sustentável.

Por outro lado, tais competências são, em princípio, tendencialmente de mais fácil acesso às gerações mais recentes, habituadas que estão a habitar um mundo que cada vez mais se constrói, e se corrói, no universo caótico da caducidade das crenças e das, cada vez mais falaciosas, “verdades alternativas”.

Se isso pode ser uma vantagem, para as gerações mais recentes, pode também acarretar novas e porventura maiores dificuldades, sobretudo quanto à necessidade de desenvolver competências que, para além do seu inegável valor instrumental para as várias situações do quotidiano, fazem apelo a categorias pessoais solidamente enraizadas em valores e características individuais, profundamente estruturadas no caráter e na personalidade.

De facto, julgo que é aceitável afirmar-se que será seguramente mais fácil desenvolver competências comportamentais que, no essencial, só fazem (ou fazem mais dominantemente) apelo à capacidade de aprendizagem e ao treino, do que promover outras, como flexibilidade cognitiva, adaptabilidade ou
autorregulação emocional, que são competências cujo desenvolvimento exige uma mais profunda “viagem” aos universos da pessoalidade de cada indivíduo.

Para estas últimas, alcançar um elevado nível de proficiência não é apenas uma questão de treino; depende, sobretudo, da atitude de cada pessoa de se colocar permanentemente “em perspetiva”, de ser capaz de construir um sentido de coerência perante realidades contraditórias e aparentemente incompreensíveis e de demonstrar uma sólida capacidade de autorregulação emocional face a situações imprevisíveis e intensamente stressantes.

Dito isto, não pretendo sustentar que a maior ou menor adaptabilidade humana às diferentes situações está diretamente dependente de questões de natureza geracional, mas tão somente que os contextos sociais e culturais podem constituir-se como fatores condicionantes para o desenvolvimento de determinadas mentalidades e, consequentemente, de formas mais ou menos estruturadas de pensar, de sentir e de agir.

Por outro lado, também não sou defensor da tese, já muito divulgada, de que a capacidade de desenvolvimento das competências mais estruturantes, aquelas que estão mais fortemente relacionadas com traços mais profundos da personalidade, dependem da genética e, como tal, são muito difíceis, ou até quase impossíveis, de adquirir e/ou de mudar.

A personalidade, sustentam os psicólogos, ou, pelo menos, os aspetos que configuram a “personalidade de base”, não se muda com facilidade. Mas o que interessa, não é saber se a pessoa X tem, ou não, os traços de personalidade mais “favoráveis” para um determinado objetivo ou missão: o que
verdadeiramente importa é o que é que essa pessoa consegue fazer com a personalidade que tem.

Neste sentido, tanto as pessoas novas como as menos novas e tanto aquelas que têm personalidades ditas “normais” como as mais problemáticas, têm em comum o grande desafio de ir “para além de si próprias”, de se superarem na busca permanente para alcançarem o melhor de si, e não apenas o melhor
para si, e de se integrarem num mundo que, aparentemente, resvala contraditoriamente para o relançamento de barreiras que, em vez de agregar, excluem e, em vez de integrar, separam.

A afirmação da importância do desenvolvimento das competências soft, sobretudo aquelas que são mais profundas e estruturantes, não é, por isso, nem só uma importante questão da Gestão Estratégica de Pessoas, nem configura uma mera leviandade estética, como sugerem aqueles que afirmam que a defesa “excessiva” das competências soft é uma pura questão de “moda” e só serve para desvalorizar os conhecimentos mais técnicos e mais “objetivos”.

Num mundo onde a imaterialidade progride e onde o futuro se torna algo de extremamente incerto, num mundo onde a volatilidade estilhaça as crenças e torna os propósitos cada vez mais fluidos, o desenvolvimento desse tipo de competências é, mais do que uma necessidade para o progresso e produtividade das empresas, um verdadeiro imperativo de cidadania.

É por isso que, por exemplo, os mais recentes modelos de liderança enfatizam muito a ideia de que, para os líderes, mais do que aquilo que fazem, importa o que eles realmente são.

O ser e o fazer constituem duas substâncias que se misturam num todo dinâmico, que se expressa através da multiplicidade e diversidade das experiências cotidianas.

Mas se o ser, sem o fazer, resulta incongruente e vazio da substância que lhe dá sentido, o fazer, sem o ser, arrisca-se a ser como o timoneiro que conduz o barco apenas em função dos ventos que sopram, mas sem um rumo certo e uma meta a alcançar.

As competências mais técnicas, ou de simples treino comportamental, são as
ferramentas de navegação; mas são as competências estruturantes que
definem o sentido último do porto a que chegar.


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Comentários 2

  1. Irene Lima says:
    2 anos ago

    Para todos nós as crônicas do Prof
    . Mário Cetil são uma excelente forma para refletirmos sobre as pessoas e as organizações no contexto atual em que vivemos.
    Os nossos agradecimentos Prof. Mário Cetil.
    Gostei muito de ler a sua crônica

  2. Cristina Barros says:
    2 anos ago

    Obrigada Irène!

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