Os RH estão “debaixo de fogo” depois de Ryan Breslow, fundador da tecnológica norte-americana Bolt, ter revelado que despediu toda a equipa de RH da empresa por considerar que esta “criava problemas que não existiam”. “Esses problemas desapareceram quando deixei essas pessoas ir embora”, afirmou o gestor durante o evento Fortune’s Workforce Innovation Summit.
"We got rid of our HR team.”
Bolt CEO Ryan Breslow defended sweeping workforce cuts at Bolt—including a recent layoff affecting roughly 30% of employees—as well as his decision to eliminate the company’s HR team.#FortuneWorkplaceSummit | https://t.co/8iLEhnNoWf pic.twitter.com/CSb2BtLqOv
— FORTUNE (@FortuneMagazine) May 19, 2026
A declaração caiu como uma bomba no setor e reacendeu uma discussão: até que ponto a IA poderá substituir funções tradicionalmente desempenhadas pelos departamentos de RH? Poucos dias depois, foi a vez de Bill Winters, CEO do banco Standard Chartered, admitir que o banco prevê eliminar milhares de postos de trabalho à medida que os agentes de IA assumem tarefas administrativas e funções de “baixo valor humano”. As declarações do banqueiro provocaram uma onda de críticas no Reino Unido e levaram-no a recuar nas palavras. Ainda assim, deixou no ar que a automação está a aproximar-se de funções tradicionalmente associadas à gestão de pessoas.
Como noticia o The Telegraph, empresas como a Deel ou a HiBob disponibilizam atualmente ferramentas de IA capazes de automatizar tarefas ligadas aos RH, desde processamento salarial e recrutamento até onboarding, gestão de desempenho e entrevistas. Citado pelo jornal britânico, Alex Bouaziz, CEO da Deel, afirma que a empresa utiliza agentes de IA para automatizar dezenas de milhares de horas de tarefas operacionais por mês.
IA já automatiza recrutamento, salários e avaliações
“O líderes de RH vão gerir agentes da mesma forma que hoje gerem pessoas”, afirma. Ao mesmo tempo, explica, “os agentes tornar-se-ão membros críticos das equipas e ficarão responsáveis pelas tarefas mais administrativas”. Ainda assim, deixa uma ressalva: “O que não será automatizado é o elemento humano: tomar decisões complexas, alinhar estratégias com a gestão de topo, reunir com candidatos em fases finais de recrutamento ou lidar com situações sensíveis com compaixão”.
“Os agentes de IA conseguem, em teoria, assumir partes significativas do trabalho que antes exigiam equipas dedicadas”, diz Suze Cook, responsável pela empresa de recrutamento Ruby Magpie, também citada pelo The Telegraph. “Triagem de candidatos, agendamento, onboarding e até partes da gestão de desempenho estão a ser automatizadas.”
O The Telegraph lembra que os departamentos de RH têm sido alvo de uma onda de críticas no Reino Unido, sobretudo por parte de setores mais conservadores, que acusam muitas organizações de terem transformado os RH em estruturas excessivamente focadas em cultura organizacional, diversidade ou inclusão, afastando-se da gestão de pessoas. O think tank britânico Policy Exchange chegou recentemente a defender que algumas destas iniciativas estariam a travar inovação e crescimento económico no país. Já Paul Sweeney, fundador da consultora Sense Labs, considera que “uma função cujo verdadeiro papel era administrativo e de compliance passou duas décadas a insistir que era arquiteta da cultura, facilitadora da experiência e parceira estratégica com lugar à mesa da gestão”.
Também Tanya de Grunwald, autora do podcast This Isn’t Working, aponta falhas ao setor. “Se tivessem sido inteligentes, ter-se-iam concentrado em mostrar porque não podem ser substituídos por bots. (…) Em vez disso, algumas práticas que vimos por parte de profissionais de RH foram tão más que obteria respostas mais inteligentes no ChatGPT do que em alguns diretores de RH.”
Contudo, dados citados pelo jornal mostram que as vagas em RH estão a crescer cerca de 10% por mês no Reino Unido, numa altura em que o mercado de trabalho abranda noutros setores.
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Surpreende-me o “abalo”. É notório o afastamento da função de RH do impacto da IA no funcionamento das empresas e das implicações nas funções e pessoas. A função há muito que se centra na “gestão das emoções” e softskils em detrimento da consciencialização e planeamento desta nova realidade, que irá “abalar” funções e pessoas. São sintomáticos as temáticas discutidas nas Conferências da área e os títulos que substituíram o “tradicional” Dir. de RH. Os “agentes” já hoje analisam, discutem em fóruns e comentam os “seus humanos” e recomendam/decidem tal como um humano. Ainda sem a componente da emoção é verdade; mas com o aumento de capacidade da AGI (Artificial General Intelligence), somado ao potencial de ir para além da identificação de padrões estatísticos, a IA irá ultrapassar a inteligência humana. Diariamente, como profissional de TI com um passado de +20 anos como Consultor e Dir. de RH, sou confrontado a necessidade/desejo de “substituir” pessoas por IA. O “abalo” é o constatar de algo que preferimos até à data ignorar por receio ou incompreensão.