Por Luís Morgadinho, especialista em management intercultural da Elemento Humano
Fale-nos sobre a Provost e a sua cultura.
A Provost é uma empresa familiar do Norte de França. Esta dimensão familiar sente-se em todas as filiais, incluindo em Portugal. Para mim, a cultura da Provost assenta na proximidade, solidariedade e espírito de equipa. Mesmo num contexto geograficamente distante e com uma equipa reduzida, estes valores permanecem centrais e influenciam profundamente o nosso funcionamento diário e as interações entre colaboradores. O espírito de equipa é primordial, todos se conhecem, cada um tem o seu lugar e é ouvido. Quando cheguei a Portugal, senti que era necessário recriar este ambiente caloroso e colaborativo, mesmo num contexto cultural diferente. Somos cerca de trinta pessoas, com cinco nacionalidades representadas. A diversidade enriquece os nossos intercâmbios e reforça a coesão. Procuramos manter um verdadeiro espírito de comunidade, onde cada pessoa se sente reconhecida e envolvida, e onde o apoio mútuo não é apenas esperado, mas vivido no dia a dia.
O que mais a surpreendeu ao chegar a Portugal?
O que mais me marcou foi a importância da emoção nas interações profissionais. Os portugueses expressam os
seus sentimentos, positivos e negativos, de forma muito espontânea, o que pode ser desconcertante para alguém de uma cultura mais reservada. Descobri também que existe uma certa prudência face à mudança e que tranquilizar, valorizar e ouvir os colaboradores é essencial. A nível prático, surpreendeu-me o custo de vida, especialmente no imobiliário, e algumas especificidades do direito laboral. Algumas tolerâncias no absentismo, por exemplo, podem parecer surpreendentes, enquanto os procedimentos de despedimento são bastante rigorosos. Compreender essas nuances é indispensável para implementar uma gestão eficaz e duradoura.
Como isso influencia o seu management?
Tenho de estar muito presente e atenta, mantendo sempre alguma distância profissional. Estar próxima das minhas equipas sem me deixar levar emocionalmente é essencial. O meu papel consiste em tranquilizar, acompanhar os projetos de perto e criar um clima de confiança. Para mim, a chave é realmente preocupar-me com as questões das pessoas, com o seu conforto no trabalho e o seu bem-estar diário. Também procuro celebrar os seus sucessos e reconhecer os seus esforços, mesmo nas pequenas tarefas. Normalmente, os meus colaboradores retribuem em dobro. Isto exige tempo e consistência, mas é o que permite a uma equipa diversa manter-se unida e motivada.
O facto de ser jovem, mulher e estrangeira foi um obstáculo?
No início, devo admitir que estava apreensiva. Portugal é um país do sul, tradicional e ligado a certas hierarquias, e perguntava-me como as minhas equipas reagiriam a uma jovem francesa à frente da filial. Rapidamente percebi que o importante não era a minha idade, género ou nacionalidade, mas a forma como me integro e demonstro interesse pela cultura local. Por isso, dediquei tempo a aprender a língua, a visitar as equipas no terreno e a envolver-me nos aspetos culturais e sociais da vida local. Para reforçar esta integração, decidi realizar todas as reuniões em português, enquanto o meu antecessor as conduzia muitas vezes em inglês. Isto permite não só criar proximidade com os colaboradores, mas também mostrar respeito pela sua cultura e língua. Humildade, paciência e adaptabilidade continuam a ser essenciais para ganhar a confiança das equipas e estabelecer um verdadeiro clima de colaboração.
Que conselhos daria a managers estrangeiros que venham trabalhar para Portugal?
Diria que a nível profissional é necessário ter paciência e acompanhar os projetos com um seguimento constante, criando proximidade com os colaboradores. Os portugueses são trabalhadores e dedicados, mas valorizam profundamente a escuta, o reconhecimento e o apoio concreto no dia a dia. Trata-se de encontrar um equilíbrio entre empatia, rigor e acompanhamento constante, uma combinação que reflete aliás tanto a cultura portuguesa como o espírito familiar da Provost. Mostrar disponibilidade, compreender as necessidades de cada um e celebrar os sucessos coletivos faz uma enorme diferença. A gestão de conflitos e a responsabilização dos colaboradores exigem também sensibilidade e paciência, especialmente num contexto em que a confrontação direta é menos frequente do que em França por exemplo. A nível pessoal, criar laços de amizade fora da comunidade internacional pode ser um desafio, pois as relações profissionais são calorosas e abertas, mas construir uma verdadeira intimidade leva tempo.
Artigo publicado na edição 161 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2025
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