Cumprir as 40 horas obrigatórias de formação está longe de significar que uma empresa esteja a desenvolver as competências das suas pessoas. Em Portugal, há organizações com academias corporativas há duas décadas, outras que continuam focadas no mínimo exigido por lei e algumas que ainda nada fazem. No podcast “Pessoas & Talento”, do iiRH/RHmagazine, Sara Dória, Managing Director da GROW-ING, fala de um país “a três velocidades” na aprendizagem organizacional, num momento em que a inteligência artificial (IA) está a acelerar mudanças no trabalho.
Quando saiu da Vodafone, em 2006, a empresa já tinha academias corporativas funcionais, com modelos de competências e programas de desenvolvimento por função. Duas décadas depois, continua a encontrar organizações que estão apenas a iniciar esse caminho. “Estamos a falar já há 20 anos e nós continuamos a ter empresas que, ainda hoje, estão-nos a pedir para começar esse percurso de desenhar academias corporativas. E depois temos aquelas que fazem a formação obrigatória e aquelas que não fazem nada ainda”, afirma Sara Dória, em conversa com Cristina Martins de Barros, Fundadora do iiRH e Diretora Editorial da RHmagazine.
Para a Managing Director da Grow-ing, estas diferenças têm implicações que vão além da política interna de recursos humanos (RH). “Temos, de facto, um país a diferentes velocidades no que diz respeito à capacitação dos RH – que é um pilar estratégico. Quando nós queremos alavancar aquele que é a nossa economia portuguesa, tem de ser muito pela capacitação.”
Cumprir a lei não chega
Mesmo quando o investimento se limita às 40 horas obrigatórias, o objetivo deve ser responder a necessidades concretas. ” A formação vai dar resposta a necessidades reais.” Há, porém, outro obstáculo: o tempo. Sara Dória considera que aprender deve entrar no planeamento das organizações como qualquer outra variável de gestão.
Escolher onde investir implica, segundo a responsável, perceber o que falta dentro da organização. Comunicação, awareness do digital e literacia digital são alguns dos exemplos transversais apontados por Sara Dória, mas o diagnóstico deve estar ligado às funções, à avaliação de desempenho e às necessidades futuras. “A formação é para dar resposta a esse gap de competências ou, então, para trazer novas competências que nós sabemos que vão ser necessárias no futuro, ainda não sendo identificadas na função atual.”
É aqui que RH, negócio e lideranças se cruzam. O líder direto pode identificar aquilo que cada pessoa precisa de desenvolver, enquanto a organização tem de antecipar o que será necessário mais à frente.
Mas antecipar não chega. “Os skills vão ser muito diferentes, e todos dizemos isto, mas o que é que nós estamos a fazer para garantir, quando chegamos a 2030, que as nossas pessoas estejam capacitadas para aquilo que vão ser as novas, o novo modelo de trabalho?”, questiona.
Também a forma de aprender está a mudar. As sessões longas dão progressivamente lugar a conteúdos mais curtos, próximos do momento em que o conhecimento será aplicado. “É muito isso que nós temos vindo a assistir lá fora, mas cá também: desta transformação de conteúdos mais curtos e híbridos, uma componente presencial, uma componente digital, continuada no tempo, com microlearning e e-learning, e que nos vai ajudar, de facto, a consolidar esse conhecimento.”
Sara Dória dá o exemplo de alguém que vai conduzir uma reunião pela primeira vez. Um curso feito três meses antes pode já estar distante. Consultar um conteúdo de 20 minutos imediatamente antes permite recuperar o essencial e aplicá-lo logo a seguir.
É nesta lógica de aprendizagem no fluxo de trabalho que a Grow-ing trabalha também com a isEazy. Como explica, a isEazy Skills disponibiliza mais de 350 cursos em português de Portugal, com conteúdos curtos pensados para profissionais em contexto de trabalho. “Precisamos aprender aquilo que vamos utilizar rapidamente.”
A IA está a acelerar a produção de conteúdos, o acesso à informação e a possibilidade de disponibilizar formação em diferentes idiomas. Mas o impacto, para Sara Dória, vai muito além da forma como se aprende. A mudança terá consequências nas próprias funções. “Vão surgir novos empregos, é um facto. Mas há empregos que vão deixar de existir e isso também é um facto.”
A responsável aponta para movimentos já observados em grandes empresas tecnológicas fora de Portugal e chama também os profissionais a assumir responsabilidade pelo próprio desenvolvimento.
Um reskilling “muito intencional”
A curiosidade ganha, assim, uma importância acrescida. “É preciso incentivar mais, trabalhar mais, trazer pessoas que são de outras gerações connosco neste processo, para não deixarmos ninguém de fora e, de facto, trabalhar num reskilling muito intencional.” “A palavra intencionalidade”, realça, “é aquilo que caracteriza agora as estratégias de formação e desenvolvimento nas organizações. Mais do que cumprir o plano, mais do que ter um levantamento de cidades e um plano de formação e avaliação da satisfação, não”.
A aprendizagem contínua também não se constrói apenas disponibilizando cursos. Sara Dória aponta para a importância de associar à estratégia de capacitação uma comunicação regular que dê visibilidade às oportunidades existentes.
Antes de criar a Grow-ing, em 2017, Sara Dória passou pela Vodafone, NETJETS, Embraer, Central de Cervejas e Capgemini. O projeto nasceu da vontade de criar uma consultora que pudesse funcionar como ponto de contacto para diferentes necessidades das organizações, recorrendo a parceiros para complementar as áreas de especialização. Quase uma década depois, a discussão sobre aprendizagem ganhou uma nova urgência. Com funções, ferramentas e formas de trabalhar em transformação, a questão já não passa apenas por quantas horas de formação uma empresa oferece, mas pelo que essas horas conseguem mudar.
Entre os destaques deste episódio:
- A necessidade de ligar a aprendizagem às necessidades reais das organizações;
- A identificação das competências necessárias nos próximos anos;
- O papel dos RH e das lideranças no desenvolvimento das pessoas;
- A aprendizagem no fluxo de trabalho, o microlearning e os novos formatos de formação;
- O impacto da IA na aprendizagem, nas competências e funções;
- A importância do reskilling;
- A construção de uma cultura de aprendizagem contínua nas organizações.
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
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