Trabalhar em Portugal continua a ser uma experiência desigual. A mais recente análise da Randstad Research, divulgada a propósito do Dia do Trabalhador, confirma um mercado de trabalho a várias velocidades, em que a região onde se trabalha influencia o salário, o tipo de funções desempenhadas, a carga horária e até as oportunidades de progressão.
Lisboa destaca-se de forma clara, sendo a única região onde o rendimento médio líquido ultrapassa os 1.400 euros mensais, fixando-se nos 1.469 euros. Enquanto isso, no Algarve esse valor desce para 1.177 euros. Por outro lado, se analisarmos as remunerações declaradas, trabalhar em Lisboa pode significar mais 525 euros por mês face a regiões do interior, o equivalente a quase mais três salários por ano, o que se deve à concentração de funções de maior valor acrescentado, nomeadamente cargos de direção, especialização técnica e funções estratégicas.
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Por detrás das diferenças salariais está um país com estruturas económicas muito distintas. O Norte e o Centro afirmam-se como o principal eixo industrial, concentrando 32,6% e 29,9% do emprego, respetivamente. Já o Algarve e a Madeira dependem fortemente do turismo, com o alojamento e a restauração a representarem 14,6% e 14,2% do emprego regional.
Lisboa e a Península de Setúbal concentram atividades ligadas ao comércio e aos serviços, enquanto o Alentejo apresenta uma maior dependência da administração pública, responsável por 12,7% do emprego na região. Este desenho económico condiciona diretamente o tipo de funções disponíveis e, consequentemente, os níveis de remuneração.
Quem lidera (e quem fica para trás)?
A distribuição das qualificações e das funções de liderança reforça este desequilíbrio. Em Lisboa, cerca de 37,5% dos trabalhadores são especialistas e 45,8% ocupam cargos de chefia ou quadros superiores, valores muito acima da média nacional, que se situa nos 29,5%.
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No extremo oposto, regiões como os Açores e a Madeira apresentam uma proporção significativamente inferior de cargos de liderança – 1,6% e 2,0%, respetivamente – e concentram também níveis mais elevados de trabalho não qualificado, que chegam a 14,1% nos Açores e 13,9% na Madeira.
Contudo, 21,5% dos trabalhadores em Lisboa ultrapassam as 40 horas semanais. Já no Norte, 59,1% dos trabalhadores cumprem horários entre as 36 e as 40 horas semanais. Em regiões como os Açores, Madeira e Alentejo, verifica-se uma maior incidência de horários mais curtos, muitas vezes associados ao setor público ou a funções menos intensivas.
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Onde é mais difícil voltar ao mercado?
As diferenças regionais tornam-se ainda mais evidentes quando se analisa o desemprego de longa duração. A nível nacional, este indicador representa 36,8% do total de desempregados, mas atinge 43,5% no Alentejo e 41,7% no Norte, sinalizando dificuldades estruturais na reintegração profissional.
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Em sentido contrário, o Algarve apresenta uma taxa de 24,2%, evidenciando maior capacidade de absorção de mão de obra, ainda que influenciada pela sazonalidade. O Centro surge como o mercado mais equilibrado, com uma taxa de desemprego de 5% e uma incidência de longa duração de 30,8%, abaixo da média nacional.
Para Isabel Roseiro, Diretora de Marketing da Randstad Portugal, “o mercado de trabalho em Portugal continua condicionado pela geografia, não apenas em termos de salário, mas também no acesso a funções de decisão e progressão profissional”. A responsável aponta para a necessidade de uma visão integrada entre empresas, políticas públicas e estratégias de talento, de forma a promover maior coesão territorial e oportunidades mais equilibradas.
O estudo surge num contexto de crescimento do emprego. Em 2025, Portugal registou 5,28 milhões de pessoas empregadas, num aumento de 3,2% face ao ano anterior. Ainda assim, esta evolução não elimina as assimetrias estruturais.
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