Uma função cresceu 4.200% em apenas dois anos com a chegada da IA às empresas. Chama-se forward-deployed engineer e é um dos exemplos mais claros de como a IA está a redesenhar o mercado de trabalho global, segundo o mais recente relatório do LinkedIn Economic Graph Research Institute.
Dados do relatório “Building a Future of Work That Works“, divulgado a propósito do Fórum Económico Mundial, cuja reunião anual em Davos começa na próxima segunda-feira, 19 de janeiro, mostram que a contratação global permanece cerca de 20% abaixo dos níveis pré-pandemia, com quedas acentuadas nas economias avançadas. Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França registam reduções entre 20% e 35% face a 2019, refletindo o impacto prolongado das taxas de juro elevadas, da contenção do investimento e da incerteza geopolítica. Em paralelo, a mobilidade laboral atingiu mínimos de uma década, tornando o mercado mais competitivo e seletivo.
A IA surge como um dos principais motores de criação de emprego neste novo ciclo. Entre 2023 e 2025, foram criados globalmente mais de 1,3 milhões de postos de trabalho diretamente ligados à IA. Só em 2025, surgiram mais de 600 mil novos empregos em centros de dados habilitados por IA, muitos dos quais não exigem formação académica tradicional, abrindo oportunidades a perfis técnicos especializados.

É neste contexto que, entre as funções emergentes, destacam-se os chamados forward-deployed engineers, que são profissionais responsáveis por adaptar soluções de IA às necessidades concretas das empresas. Desde 2023, este tipo de função registou um crescimento de 4.200%.
Ainda assim, a adoção de competências em IA continua concentrada num número reduzido de profissionais. Em 2025, apenas cerca de 3% dos profissionais nos Estados Unidos declaravam competências em IA nos seus perfis do LinkedIn, sobretudo nas áreas de engenharia, gestão de produto e investigação. Quem possui estas competências desenvolve novas capacidades a um ritmo 3,4 vezes superior, em termos anuais, face aos profissionais sem literacia em IA. Porém, o relatório sublinha que capacidades como pensamento crítico, comunicação, adaptabilidade e resolução de problemas continuam a ser determinantes, sobretudo num contexto em que a automação avança, mas não substitui o julgamento humano.
“New-collar jobs”
Esta transformação está a acelerar a emergência dos chamados “new-collar jobs”, funções híbridas que cruzam tecnologia, negócio e competências humanas e que não exigem, necessariamente, um diploma universitário. Segundo projeções citadas pelo LinkedIn, cerca de 60% dos novos empregos até 2030 deverão surgir em ocupações fora do modelo académico tradicional, reforçando a importância da requalificação, do upskilling e da aprendizagem contínua.
O mercado de trabalho torna-se também mais desigual. Enquanto as economias maduras enfrentam estagnação, alguns mercados emergentes ganham peso como polos globais de talento. A Índia destaca-se com um crescimento de 40% nas contratações face ao período pré-pandemia, seguida dos Emirados Árabes Unidos, com um aumento de 37%, beneficiando da combinação entre investimento tecnológico, demografia favorável e modelos de trabalho mais flexíveis.
O impacto da IA na função de RH
Para os profissionais de recursos humanos (RH), os dados revelam ainda a crescente importância das redes internas.
- Candidatos referenciados internamente têm 3,6 vezes mais probabilidade de serem contratados, reforçando o papel do employee engagement, da mobilidade interna e da cultura organizacional como fatores críticos na atração e retenção de talento;
- A IA aplicada ao recrutamento reduz o tempo médio de contratação em cerca de 30%;
- Modelos de contratação baseados em competências permitem identificar até 8,2 vezes mais talento ligado à IA.
O mercado de trabalho entra assim numa nova fase. O foco desloca-se para a produtividade, para a capacidade de aprender rapidamente e para a forma como as empresas reorganizam funções e equipas num mercado em permanente mudança.
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