Quais são as estratégias que a Associação BRP está a implementar para atrair e fidelizar talento em Portugal?
O BRP é formado pelas maiores empresas em Portugal, que colocam à disposição do país o seu conhecimento, experiência e recursos. A atração e retenção de talento tem sido um dos focos centrais do trabalho realizado pelo Eixo Pessoas da Associação, visto que enfrentamos uma vaga de emigração de talento qualificado sem precedentes na história do nosso país.
Talento este que não dá esperanças de querer regressar. Sem profissionais para responder às necessidades atuais e futuras do mercado de trabalho, a sustentabilidade futura da nossa economia e do país ficará comprometida. Sem pessoas qualificadas não conseguimos ser mais produtivos e competitivos, gerar mais riqueza e garantir a qualidade de vida que todos os portugueses anseiam.
De que forma o BRP colabora com entidades governamentais e do setor privado para criar um ambiente mais favorável à fidelização de talentos?
Na Associação BRP, acreditamos que as empresas têm um papel relevante para a alteração desta situação, por isso estamos a mobilizar o tecido empresarial, mas também outras entidades privadas, a fazerem parte das nossas iniciativas, como copromotores ou participantes. Só assim poderemos criar maior impacto nas áreas que consideramos essenciais para alavancar o crescimento económico e social do país.
Esta colaboração estende-se às entidades governamentais, pois são elas que têm o poder e a responsabilidade de formularem políticas públicas que respondam verdadeiramente às necessidades do país. E, neste domínio, devemos ser exigentes, tal como somos com as nossas empresas. Só assim, em conjunto, será possível criar condições para atrair e reter o nosso talento, seja através de novas oportunidades e de melhores salários, aumento do poder de compra ou alívio da carga fiscal.
Ou seja, medidas que devolvam o desejo aos portugueses de empreender, criar e investir, e, sobretudo, a esperança de uma vida melhor, conforme apresentámos no nosso “Manifesto por um Portugal mais justo, próspero e sustentável”. É importante referir que as empresas em Portugal recorreram com sucesso ao regime de Não Residentes Habituais (RNH) e ao programa Regressar para atrair quadros qualificados, sejam portugueses, luso-descendentes ou de outras nacionalidades.
Lamentavelmente, as mudanças introduzidas com o Orçamento do Estado para 2024, designadamente com o fim do RNH, estão a reerguer as barreiras às condições oferecidas pelas empresas. O novo incentivo à investigação científica e inovação veio criar um enquadramento menos favorável e de âmbito muito mais “estreito”, num contexto de forte competição por talento na Europa.
Lamentavelmente, as mudanças introduzidas com o Orçamento do Estado para 2024, designadamente com o fim do RNH, estão a reerguer as barreiras às condições oferecidas pelas empresas.
Quais são as cinco iniciativas que sugere ao Estado para melhorar as oportunidades dos jovens em Portugal?
É urgente promover o esforço e o sucesso das pessoas, permitindo ao trabalhador um retor- no justo pelo esforço e empenho. Para tal, é preciso redesenhar o sistema de IRS de forma a reduzir a voracidade fiscal. Atualmente, a partir de rendimentos modestos aplicam-se taxas de IRS muito elevadas, que crescem rapidamente, o que acaba por desencorajar o esforço, a dedicação e o progresso dos que trabalham.
Complementarmente, precisamos de reduzir os custos das empresas com o trabalho que são canalizados para o Estado, que tem o nome técnico de tax wedge. Uma parte substancial do custo suportado pela empresa não chega ao trabalhador e isso é determinante para a fraca atratividade, até porque se aplica sobre salários baixos comparativamente com outros países. Para um país com uma natalidade baixa, penalizamos de forma preocupante as famílias com filhos, tendo mesmo o 6o tax wedge mais penalizador para famílias com dois filhos e rendimentos abaixo da média. É preciso alterar esta realidade com urgência.
Outra das medidas a empreender, passa pela simplificação da burocracia e dos licenciamentos. Políticas públicas erradas no âmbito dos licenciamentos urbanos e do mercado de arrendamento, seguidas ao longo de décadas, prejudicaram o acesso à habitação para jovens, contribuindo para este quadro. Por último, no BRP acreditamos que os salários (e a produtividade) baixos de Portugal são explicados pela reduzida dimensão das nossas empresas — são as grandes empresas que pagam melhores salários e oferecem melhores oportunidades de desenvolvimento ao talento.
Acreditamos que os salários (e a produtividade) baixos de Portugal são explicados pela reduzida dimensão das nossas empresas
É fundamental remover os desincentivos à escala e ao crescimento das empresas, pois só com empresas de maior dimensão teremos melhores salários, mais investimento e mais inovação e até mais receitas fiscais. Propomos, assim, uma simplificação significativa do sistema de IRC, através da fixação de uma taxa única, correspondente à taxa efetiva (que a AT afirma ser de 18,9%).
Artigo publicado na edição 152 da RHmagazine, referente aos meses de maio e junho de 2024