Luís Botelho
Membro da Direção da APG
Em maio de 2004 publicava-se pela primeira vez a Norma Portuguesa da Qualidade sobre sistemas de gestão de recursos humanos – NP 4427:2004. Trabalho meritório pelo desafio a que se propunha permitindo que os sistemas de gestão de recursos humanos pudessem ser avaliados e consequentemente certificados no âmbito do Sistema de Qualidade. Credibilizar esse objetivo impunha a integração, não só no sistema português no qual o Instituto Português da Qualidade (IPQ) é o Organismo Nacional de Normalização, como também a compatibilização com as normas ISO associadas à gestão de sistemas conexos, em especial a 9001:2000.
A ideia de qualidade passa sempre, como indicia a própria ISO, por garantir conjunto de características do serviço que lhe confere aptidão para satisfazer necessidades explícitas ou implícitas de quem o requer, ou seja, não se remete para o cumprimento de uma resposta estrita ao pedido quase formal do cliente mas procura garantir algo mais que lhe permita obter mais valias para além do nível da necessidade.
Neste ritmo de mudança, 14 anos é demasiado tempo. No mundo tecnológico percebemos que 2017 – quando se iniciaram os trabalhos de revisão da norma – foi o ano em que mais de metade da população mundial acede à internet (15% em 2004); na economia mundial, assistimos à maturação da ideia de globalização (agora na versão 4.0) com efeitos nas pessoas. Previsões confrontam-nos com anúncios do desaparecimento de profissões que dávamos como eternas e necessidade de obtermos competências para o mundo do trabalho que nunca as universidades equacionaram, pelo menos quando por lá andámos – notícias do “Future of Jobs Report 2015–2020” publicado no início de 2016 pelo World Economic Forum.
Também o sistema de gestão das pessoas impunha novos paradigmas. A APG foi convidada pelo IPQ para se assumir como gestora do Organismo de Normalização Setorial (ONS) e encarregar-se de reativar a Comissão Técnica CT 152 para promover a revisão da NP 4427 que, à semelhança das outras normas, já previa a sua revisão periódica, mas que tardava a acontecer. Aliás, a própria ISO 9001, principal norma orientadora da NP 4427:2004 sofrera revisões profundas em 2008 e em 2015, deixando a norma portuguesa cada vez mais afastada do paradigma da gestão da qualidade.
Ente outros aspetos, o novo quadro da ISO 9001 retirava a obrigatoriedade do Manual de Qualidade, substituindo pelo conceito de “informação documentada”, aligeirando o processo de certificação, enfatizou o efeito do risco como efeito da incerteza de resultados adequando ao contexto de mudança e tornou central a liderança do sistema. A revisão da norma permitia e dava oportunidade de reaproximação ao novo ciclo do sistema de gestão da qualidade iniciado pela ISO:2015.
No processo de revisão, recompôs-se a CT 152 que passou a integrar uma diversidade de especialistas da área de gestão das pessoas – diretores de RH do setor público e privado, empresas de prestação de serviços RH, professores universitários, empresas de certificação, especialistas indicados pelos sindicatos e outros peritos convidados.
Em 2004 falávamos em sistema de gestão de recursos humanos. A preocupação fundamental consistia na criação de contextos facilitadores de atração e manutenção de talentos – pessoas distintivas no seu desempenho – e garantir o seu desenvolvimento, potenciando assim estes recursos.
Em 2017, quando se procedeu à revisão da norma, a ideia de identificar o papel do homem como “recurso” já estava há algum tempo em abandono. A consensualidade de que o mais importante no mundo produtivo são as Pessoas, determinava a evolução para sistema de gestão das pessoas.
A necessidade de aproveitar das pessoas todo o potencial que apresentam apenas respondia em primeira linha à necessidade explícita. Garantir estrategicamente a atualização, quer na modernidade, quer na correspondência à missão – visão – estratégia organizacional, da estrutura de competências assegurando adequada empregabilidade interna, é a garantia de resposta à sustentabilidade do projeto da organização.
O sistema de gestão das pessoas toma como elemento essencial a garantia de disponibilização de conhecimentos, práticas e comportamentos consubstanciados pelos resultados. Numa palavra, competências.
O Sistema passa assim por um processo contínuo de diagnóstico de competências necessárias e de verificação da sua criticidade (plan), garantindo, pela monitorização dos desempenhos, os níveis de domínio das competências pelas pessoas, nos vários perfis considerados (do), estabelecendo a comparação e identificando desvios para com os resultados pretendidos (check), promovendo a sua adequação e atualização (act), renovando-se o ciclo com novo diagnóstico.
O ciclo P-D-C-A, central ao Sistema de Qualidade, fica inscrito no Sistema de Gestão das Pessoas permitindo assim a constante melhoria.
A pessoa no seu potencial e desenvolvimento, elemento de excelência nas organizações, é tomada como a aposta diferenciadora no sucesso das organizações.