Durante três séculos, o escritório passou por sucessivas revoluções. Sobreviveu à chegada dos caminhos-de-ferro, à eletrificação, ao telégrafo, às máquinas de escrever, aos computadores pessoais e à internet. Porém, segundo os CEO, nenhuma dessas transformações causou tanta disrupção como a IA.
Esta é uma das principais conclusões do relatório IWG: 300 Years of Office Innovation, realizado pela International Workplace Group (IWG), que procurou perceber quais as inovações que mais marcaram a evolução do local de trabalho desde 1726, ano em que abriu portas o primeiro escritório construído de raiz da história. Os resultados mostram que a IA é apontada por 36% dos CEO como a inovação mais influente dos últimos 300 anos, surgindo à frente dos computadores portáteis e tablets (35%), das videochamadas e videoconferências (31%), do Wi-Fi e Bluetooth (29%) e do trabalho híbrido (26%).
No século XIX, a expansão dos caminhos-de-ferro transformou as deslocações diárias para o trabalho. Seguiram-se o telégrafo elétrico, as máquinas de escrever e a iluminação elétrica, que alteraram profundamente a organização do trabalho administrativo. Já no século XX, a construção dos primeiros arranha-céus de escritórios e a introdução da semana de trabalho de 40 horas consolidaram muitos dos modelos laborais que ainda hoje persistem.
Contudo, foi a partir dos anos 90 que o ritmo de transformação acelerou. O e-mail e a internet passaram a integrar o dia a dia das organizações, seguindo-se o Wi-Fi, os smartphones, as plataformas de colaboração digital e, mais recentemente, os modelos híbridos de trabalho. No entanto, os líderes empresariais entendem que nenhuma destas mudanças rivaliza com o impacto potencial da IA generativa.
Mais do que uma ferramenta tecnológica, 35% dos CEO afirmam que a IA foi a inovação com maior impacto direto na produtividade das suas organizações. No total, 83% consideram que as mudanças recentes na forma de trabalhar tiveram um impacto positivo, enquanto 81% acreditam que os locais de trabalho atuais estão melhor preparados para promover a colaboração e a produtividade do que em qualquer outro momento.
O trabalho híbrido surge também entre as cinco inovações mais influentes identificadas pelos CEO. De acordo com o relatório, 35% dos líderes empresariais consideram que a tecnologia tornou mais fácil trabalhar a partir de qualquer lugar, enquanto 30% reconhecem que as reuniões são hoje mais virtuais do que presenciais.
Anos 2020 ultrapassam revolução da internet
Questionados sobre qual foi a década mais transformadora da história recente do trabalho, os CEO colocam os anos 2020 no primeiro lugar. A combinação entre trabalho híbrido, IA, automação e novas formas de colaboração digital é vista como uma mudança mais profunda do que a provocada pela internet nos anos 90, que surge em segundo lugar no ranking.
Segundo a International Workplace Group, cerca de 68% dos CEO admitem sentir falta de ferramentas e tecnologias do passado. Ao mesmo tempo, apenas 20% dos inquiridos afirmam conseguir explicar o funcionamento de uma máquina de fax e 16% dizem o mesmo sobre as disquetes. Entre as inovações que acreditavam que iriam transformar profundamente o trabalho, mas cujo impacto acabou por ser mais limitado, surgem os óculos inteligentes (41%), as passadeiras integradas em secretárias (39%) e os quadros interativos (35%).
E Portugal?
A realidade portuguesa parece acompanhar esta tendência. Segundo dados citados pela IWG, 62,7% das empresas nacionais já testaram soluções de IA, sobretudo em áreas como análise de dados, automatização administrativa, marketing, apoio ao cliente e assistentes virtuais.
A expectativa é elevada, sendo que 82,9% das organizações acreditam que a IA terá um impacto positivo na produtividade. Ao mesmo tempo, 72,7% das empresas que já implementaram estas tecnologias estão a disponibilizar formação aos seus colaboradores.
Para Mark Dixon, CEO e Fundador da IWGroup, a atual transformação poderá representar um dos momentos mais marcantes da história do trabalho moderno. “Ao longo dos últimos 300 anos, o escritório evoluiu continuamente lado a lado com cada grande vaga de inovação tecnológica. Agora, com o surgimento e a rápida adoção da IA, estamos perante uma das inovações mais significativas e transformadoras de todo este período.”
300 anos de escritório em 14 momentos-chave
- 1726: o Old Admiralty Building, em Londres, abre portas e fica para a história como o primeiro escritório construído de raiz do mundo;
- Início do século XIX: a expansão dos caminhos-de-ferro altera a geografia do trabalho e torna possível a deslocação diária para os centros urbanos;
- Década de 1810: as prensas de cópia começam a popularizar-se, permitindo reproduzir documentos em escala;
- Década de 1860: o telégrafo elétrico inaugura uma nova era de comunicação à distância;
- Década de 1880: a máquina de escrever transforma a produção documental nos escritórios;
- Década de 1890: a iluminação elétrica prolonga os horários de trabalho e redefine os espaços profissionais;
- 1931: a inauguração do Empire State Building simboliza a ascensão dos grandes escritórios corporativos;
- 1938: o Fair Labor Standards Act, nos Estados Unidos, ajuda a consolidar a semana de trabalho de 40 horas e o horário das nove às cinco;
- Década de 1970: os computadores pessoais começam a chegar aos locais de trabalho;
- Década de 1990: o e-mail e a internet tornam-se ferramentas essenciais da vida profissional;
- Década de 2000: o Wi-Fi passa a integrar a infraestrutura básica dos escritórios modernos;
- Década de 2010: os smartphones tornam o trabalho móvel uma realidade;
- 2020: a pandemia acelera a adoção do trabalho híbrido à escala global e altera a relação entre pessoas e escritório;
- 2023: a IA generativa entra nas organizações e inaugura uma das mais profundas transformações do trabalho desde a chegada da internet.
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI