Como é que a Bosch equilibra a tradição e a inovação de forma a manter-se relevante na indústria e, ao mesmo tempo, dar resposta às constantes mudanças do mercado?
O que nos mantém no caminho do sucesso e com o foco no futuro é precisamente o sabermos equilibrar a importância da tradição com a inovação. Somos uma empresa sólida, com independência financeira e valores que temos vindo a reforçar ao longo de mais de 137 anos de história. Sabemos que temos um propósito comum e trabalhamos juntos para alcançá-lo: criar um futuro melhor em que a tecnologia irá aumentar a qualidade de vida das pessoas e ajudar a proteger o ambiente. Atualmente, temos mais de 85 mil colaboradores em todo o mundo exclusivamente a trabalhar na investigação e desenvolvimento de “tecnologia para a vida”, nomeadamente nas áreas da mobilidade, tecnologia industrial, bens de consumo e energia e tecnologia para edifícios.
Temos analisado o crescente impacto da transformação digital no local de trabalho e, por sua vez, na Gestão de Pessoas. Neste sentido, será que a tecnologia é um “tiro no pé” dos RH ou uma mais-valia?
Uma empresa como a Bosch não pode olhar para a tecnologia como um “tiro no pé”. Não podemos fazer de conta que não existe esta transformação digital. A melhor atitude face à mudança é: eu não quero ter de adaptar-me ao futuro, eu quero dar forma ao futuro. Na Bosch, sabemos que a digitalização é o caminho, e isto é válido para as várias áreas da empresa, incluindo a Gestão de Pessoas e os RH. Neste sentido, temos vindo a identificar como podemos beneficiar desta transformação digital para agilizar e otimizar as nossas atividades, seja com a recolha de dados para melhoria contínua ou com a utilização de novas ferramentas digitais, por exemplo. Estamos ainda a desenvolver ferramentas com IA que certamente vão revolucionar a forma como gerimos os nossos processos.
O objetivo, com o nosso HR Chatbot, é criar uma experiência imersiva e natural de conversação para poder responder a todas as questões possíveis dos colaboradores
Qual é o papel da liderança na criação de uma cultura organizacional onde a tecnologia avançada e o contacto humanizado têm de se conjugar?
Uma das frases mais impactantes que eu já ouvi relativamente à liderança veio de um jovem, que disse que: “Para a vossa geração, you are what you have. Tens um gabinete muito grande, tens um carro muito grande, tens um refeitório só para ti. Na nossa geração, it’s not what you have, it’s what you are.” Cada vez mais, os líderes devem inspirar, envolver e sobretudo mobilizar as suas pessoas, e é isso que procuro fazer no meu dia a dia. Reforçar os nossos valores, o nosso propósito e envolver os colaboradores com a nossa cultura para que digam “sim, eu tenho orgulho em trabalhar na Bosch”. Felizmente podemos afirmar que já o fazem mais de 90% dos nossos colaboradores em todo o mundo.
“Nunca te esqueças da tua humanidade e respeita a dignidade humana nos teus negócios com os outros” – esta é uma frase do nosso fundador, Robert Bosch, que nos guia todos os dias. O fator humano, as pessoas, continuam a ser a base de tudo, seja interna como externamente.
Temos mais de 40 nacionalidades em Portugal, cerca de 20% dos colaboradores em posição de gestão são mulheres, e temos vindo a desenvolver programas para inclusão de pessoas com necessidades especiais
A Inteligência Artificial tem desempenhado um papel crucial na automação de tarefas de recursos humanos. Quais foram as áreas na Bosch que beneficiaram mais com este tipo de soluções e quais foram os resultados observados?
Na Bosch, consideramos a Inteligência Artificial, em combinação com a conectividade do produto, como uma tecnologia-chave e um impulsionador do progresso na nossa sociedade.
Especificamente nos recursos humanos, destacamos o nosso HR chatbot, que está a ser aperfeiçoado com os mais avançados princípios da IA generativa. O objetivo é criar uma experiência imersiva e natural de conversação usando todo o conteúdo existente no nosso portal de informação de RH como fonte de conhecimento para poder responder a todas as questões possíveis dos colaboradores. Adicionalmente, irá direcionar os utilizadores para as aplicações corretas e pré-preencher tantos dados quanto possível para facilitar a operação: em essência, todos nós termos o nosso próprio assistente digital.
Aliando-se às várias automações já existentes – quer no backend, quer em contacto direto com os utilizadores através de vários formulários digitais –, pretendemos construir um ecossistema interligado, dinâmico e pronto para o futuro. Um exemplo perfeito é a ligação deste chatbot com um formulário inteligente que assiste no requerimento para fazer “Smart Work Abroad” (iniciativa que permite aos colaboradores Bosch trabalhar remotamente a partir de outras partes do mundo). Esta automação híbrida tem sido muito apreciada tanto por quem usa o serviço como pelas equipas responsáveis por dar seguimento ao mesmo.
Outro exemplo foi a criação duma aplicação móvel onde os colaboradores Bosch em Portugal podem submeter as suas ausências de doença; usando tecnologias de scan digital validamos se as mesmas são corretas, informamos os respetivos managers e atualizamos os sistemas tudo numa só interação – trazendo uma melhor experiência de utilização e agilizando o trabalho das nossas equipas de back office.
Como é que promovem esses valores junto dos colaboradores, de forma a que se sintam valorizados e respeitados?
A Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) é um dos valores da Bosch e uma parte essencial da nossa cultura e estratégia empresarial. Diversidade é sermos convidados a participar na festa, e Inclusão é que as pessoas queiram dançar connosco. A grande variedade de origens, perspetivas e experiências entre os nossos colaboradores é fundamental que tenha um impacto genuíno: temos mais de 40 nacionalidades em Portugal, cerca de 20% dos colaboradores em posição de gestão são mulheres, e temos vindo a desenvolver programas para inclusão de pessoas com necessidades especiais.
A diversidade é estimulada entre os líderes para que, no momento em que vamos recrutar, não busquemos apenas pessoas que refletem quem nós somos, mas para que tenhamos os olhos abertos ao “diferente de nós”. Promovemos a DEI entre as equipas como algo que pode realmente ser uma mais-valia e essencial para a inovação. Além disso, procuramos reforçar a sensibilização para a diversidade e como esta pode trazer um impulso valioso a novas ideias e abordagens que são essenciais para tornar a nossa empresa mais bem-sucedida. Por isso, de forma resumida, por um lado, estamos a criar condições equitativas ou equidade de oportunidades. Por outro, promovemos uma cultura empresarial aberta e de confiança – uma cultura em que todos se sintam incluídos – e incentivamos a valorização da diversidade como uma vantagem nas equipas.
A diversidade é estimulada entre os líderes para que, no momento em que vamos recrutar, não busquemos apenas pessoas que refletem quem nós somos, mas para que tenhamos os olhos abertos ao “diferente de nós”
Sente que o mercado de recrutamento e seleção é mundial ou a gestão é feita localmente?
Se a chamada globalização já tinha trazido a ideia de termos um mercado cada vez mais sem fronteiras, a pandemia veio reafirmar e potenciar ainda mais essa realidade, nomeadamente com os novos modelos de trabalho. No recrutamento de engenheiros IT, que é aquele que tem vindo a desenvolver-se mais na Bosch em Portugal, hoje lidamos com o desafio de estarmos a competir no mercado de recrutamento não só com as empresas portuguesas, mas com as empresas de todo o mundo.
A realidade não difere muito no departamento de Recursos Humanos, onde o recrutamento e seleção é feito, cada vez mais, através de um People Acquisiton Campus (PAC), que opera num determinado país e que permite que o recrutamento e seleção dos nossos colaboradores seja feito por uma equipa que olha para as necessidades a nível nacional e não apenas a nível de uma das localizações. Implementámos, este ano, um PAC para Portugal na nossa localização em Lisboa, e estamos bastante satisfeitos com os resultados. Hoje, sabemos que há a possibilidade de estarmos a entrevistar um candidato que não é o mais adequado para uma vaga em Aveiro, mas que pode perfeitamente ser o candidato ideal para a Bosch em Braga, por exemplo, e já o conseguimos reencaminhar para outro processo de seleção.
Por isso, eu diria que temos de nos adaptar ao mercado, recrutar de forma cada vez mais global, reforçar o nosso employer branding e o propósito da Bosch como fatores de diferenciação. Internamente, temos de continuar a reforçar a nossa cultura, o cuidado com as pessoas e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional para que consigamos ser bem-sucedidos.
E no âmbito da sustentabilidade, quais foram as ações que puseram em prática?
Na Bosch temos um compromisso muito sério com a sustentabilidade, e que é um compromisso global. A base estratégica para isso é a nossa visão “Novas Dimensões – Sustentabilidade 2025”, que desenvolvemos com base nas megatendências atuais. Em cada uma das dimensões que definimos – clima, energia, água, urbanização, globalização e saúde -, concentramos as nossas atividades nas áreas em que podemos dar uma contribuição mais valiosa, para as pessoas e para o meio ambiente.
A neutralidade carbónica foi alcançada e a Bosch já está a trabalhar nas próximas etapas: na cadeia de valor a montante e a jusante, pretendemos reduzir as nossas emissões de CO2 em toda a cadeia de valor em 15% até 2030. É um dos nossos grandes objetivos e passa por continuar a apostar em medidas para a eficiência energética, energia limpa, eletricidade verde e compensação de carbono. Por exemplo, até 2030, a Bosch pretende gerar cerca de 400 GWh de energia a partir de fontes renováveis – principalmente de energia fotovoltaica (PV). Em Portugal, as localizações da Bosch reduziram o consumo de energia em 5% em 2020.
Mencionando especificamente alguns exemplos de ações concretas de Portugal, podemos falar do facto de todas as localizações da Bosch em Portugal terem registado uma diminuição de 8% no consumo em relação ao ano de 2021, graças a várias medidas que foram implementadas para tornar o consumo de água mais eficiente. Outras das áreas onde têm sido aplicados projetos específicos é a diminuição da quantidade de resíduos produzidos face ao nosso volume de negócio, com vista também aumentar a quantidade de resíduos que enviamos para valorização em detrimento do que é enviado para deposição. Mais de 90% dos resíduos produzidos na empresa são encaminhados para valorização.