Maria José Chambel
Docente na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa
Atualmente, um dos desafios mais importantes que a maioria dos profissionais enfrenta no seu dia-a-dia, é conseguir responder com eficácia a todas as solicitações que lhe são feitas. O desempenho de vários papéis – ser pai/mãe, filho(a), amigo(a), trabalhador(a), membro de uma associação e comunidade – implica múltiplas tarefas e responsabilidades, as quais, muitas vezes, são difíceis de conciliar. Por exemplo, quando é exigido ou pedido que prolonguem o horário de trabalho e isso os impede de ir buscar os filhos à escola, podemos falar de conflito entre o trabalho e a família, porque o desempenho do seu papel profissional está a interferir negativamente com o desempenho do seu papel parental. Do mesmo modo, se um dos seus familiares próximos está doente, podem sentir-se demasiado tensos e ansiosos e estes sentimentos podem dificultar a realização das suas tarefas profissionais. Desta vez falamos de conflito entre a família e o trabalho, porque o desempenho do seu papel familiar está a interferir negativamente com o desempenho do seu papel profissional.
O conflito entre o trabalho e a família tem ganho cada vez mais relevância, porque se há dez anos se reconhecia que a maioria dos profissionais tinha demasiadas tarefas que precisavam de ser realizadas em prazos demasiados curtos, hoje em dia, para além desta exigência, muitos profissionais têm dificuldade em gerir a fronteira entre a sua atividade e a sua vida pessoal e familiar. O trabalho deixou de ter uma hora e/ou um local, passando a invadir a esfera privada. É em casa que se conclui aquela tarefa que no escritório não se conseguiu terminar. É no caminho para casa que se contacta aquele cliente ou fornecedor com quem não se conseguiu falar entre as 9 e as 18h, é durante uma atividade social que se aproveita para olhar e responder aos e-mails que não se conseguiu consultar durante o dia.
De facto, o que se passa hoje é que não só as organizações tendem a considerar um bom trabalhador aquele que que está sempre disponível, como os próprios trabalhadores tendem a estar sempre a trabalhar ou a pensar no trabalho, mesmo quando estão fora do local e do horário do seu trabalho. Neste contexto de invasão do domínio profissional na esfera privada, muitas das práticas desenvolvidas pelas organizações no sentido de promover o equilíbrio entre estes dois domínios (p. ex. redução e flexibilidade de horário, facilidade na assistência à família) deixaram de ser suficientes. Combater o conflito entre a vida profissional e a vida pessoal/familiar passou a ser um desafio mais complexo que implica alterações não só nas organizações, mas nos próprios profissionais e na forma como gerem os seus diferentes papéis.
Os níveis de conflito entre o trabalho e família só podem diminuir se existir uma cultura organizacional, isto é, um conjunto de valores que desencorajam os profissionais a estar sempre disponíveis, se existirem chefes que respeitem e valorizem o espaço e a hora privada, se cada um dos profissionais souber gerir as fronteiras entre a sua vida profissional e sua vida pessoal/familiar, definindo o nível de integração vs. segmentação entre estes domínios da sua vida. Por exemplo, haverá mais equilíbrio trabalho-família se a organização impedir que os trabalhadores utilizem o e-mail profissional fora do horário de trabalho, mas também se cada trabalhador definir para si próprio que só usa o seu e-mail profissional no horário de trabalho e o seu e-mail pessoal fora do seu horário laboral.
A European Foundation for the Improvement of Living and Working Conditions reconhece o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal como um dos pilares para avaliar a qualidade de vida dos indivíduos. De facto, este equilíbrio é fundamental para todos, porque o conflito entre estes domínios tem múltiplas consequências negativas para os indivíduos, para o seu trabalho e para as suas famílias. Os trabalhadores que vivem estas interferências negativas do trabalho na sua vida pessoal/familiar apresentam piores níveis de bem-estar e saúde, quer a nível físico, quer psicológico. Concretamente, tem sido demonstrado o prejuízo ao nível da saúde e bem-estar físicos, porque este conflito influencia os níveis de pressão arterial, de colesterol, os problemas gerais de saúde física e a adoção de comportamentos pouco saudáveis, como, por exemplo, a dependência de substâncias, a utilização extensiva de medicamentos e o abuso de álcool e tabaco. Ao nível da saúde e bem-estar psicológicos, tem sido observada a relação desta interferência do trabalho na família, com a depressão, a ansiedade, o stress e os níveis de satisfação geral com a vida. Deste modo, quando reconhecemos a necessidade e a obrigação de construir um contexto de trabalho saudável para todos, reconhecemos também a necessidade de proporcionar um equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal/familiar.