“O meu CEO quer que toda a gente volte ao escritório… mas as pessoas não querem voltar!” Este poderia ser apenas mais um lamento pós-pandémico, mas é, na verdade, o ponto de partida para um tema bem mais profundo: o papel do espaço físico de trabalho na experiência, produtividade e cultura organizacional.
O debate, promovido durante o Fórum RH pela RHmagazine, juntou Rui Malcata, Diretor da Steelcase, e Patrícia Agostinho, Chief Happiness Officer da EY, e revelou muito mais do que soluções para fazer as pessoas regressarem ao escritório – revelou a transformação do próprio conceito de espaço de
trabalho.
O regresso ao escritório não deve ser uma imposição, mas um convite com propósito. A verdade é que o retorno ao escritório não é uma imposição fácil. Apesar dos esforços – cadeiras ergonómicas, plantas purificadoras, mesas ajustáveis – muitos colaboradores continuam a preferir o conforto informal de casa. A provocação de Rui Malcata foi clara: “Open space é para amadores”. A Steelcase defende que o espaço de trabalho deve ser visto como uma ferramenta estratégica de gestão. É nele que se materializa a cultura, se criam relações e se experimenta o que de mais tangível há numa organização: a pertença.
Na EY, a abordagem foi estrutural: mudar de instalações, redesenhar os ambientes e colocar o foco nas pessoas. O novo escritório em Alcântara não tem gabinetes, nem mesmo para o CEO. Há sofás, salas de inovação, quiet rooms, zonas de socialização, balneários e 39 opções de postos de trabalho para cada colaborador escolher consoante a tarefa e o estado de espírito. “As pessoas não querem apenas um sítio para trabalhar. Querem um local onde possam aprender, crescer e viver experiências”, afirmou Patrícia Agostinho.
Espaços híbridos precisam de oferecer mais do que mesas – precisam de oferecer significado. E é isso que a EY tenta proporcionar com pequenos-almoços diários, sessões de desporto, massagem no local, quizzes à hora de almoço, campanhas de responsabilidade social e eventos para famílias. Tudo voluntário, mas estrategicamente pensado para que o regresso ao escritório não seja uma obrigação, mas uma vontade.
Para a Steelcase, a chave está na flexibilidade: permitir que os colaboradores escolham quando e como regressar, com base nas suas necessidades reais. Como bem sublinharam, os colaboradores não dizem que não querem ir ao escritório – dizem que não querem enfrentar trânsito, perder tempo ou sentir-se desconectados. O espaço físico tem de se adaptar à nova realidade do trabalho híbrido e ser capaz de oferecer bem-estar enquanto se trabalha – não só antes ou depois da tarefa executada.
O escritório do futuro será aquele onde as pessoas querem estar – não onde têm de estar. Ambos os oradores defenderam que, mais do que instalar cacifos ou criar camaratas (com ironia ou sem ela), o essencial é construir lugares com propósito. Espaços que não se limitem a sentar pessoas, mas que as inspirem, envolvam e façam crescer. Mas até aí, a pergunta mantém-se: queremos regressar ao trabalho… ou queremos regressar a um lugar onde vale a pena estar?
Em suma, estamos perante uma nova era da gestão do espaço de trabalho, em que o foco está menos em controlar a presença e mais em proporcionar experiências que façam sentido. O desafio não é convencer alguém a voltar ao escritório – é reinventar o escritório de forma tão relevante e inspiradora que ninguém queira ficar de fora. À medida que o trabalho híbrido se consolida, as empresas que mais investirem em ambientes humanizados e flexíveis estarão na linha da frente da retenção de talento e da construção de culturas organizacionais sólidas.
Artigo publicado na edição 158 da RHmagazine, referente aos meses de maio e junho de 2025
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Vejo muito as empresas a gastar dinheiro com remodelações dos seus escritórios, mas não li nada sobre uma das principais preocupações dos trabalhadores que têm de regressar ao trabalho presencial: os transportes. Sim, a viagem de casa para o emprego. Seja de transportes públicos, seja de automóvel próprio é sempre uma fonte de chatices e de stress e cada vez pior.
Quem está em teletrabalho GANHA pelo menos 2h por dia de tempo livre, que são as tais 2 (ou mais…) horas que perde nos transportes.
Não pensem só na parte “visível” ou “bonitinha” da questão. Se o fizerem, só estão a gastar dinheiro para nada.
Pensem no problema de fundo. Isso é que vos vai levar à solução.