Por Alexandra Andrade, CEO da Adecco Portugal
O
mundo do trabalho entra em 2026 com um ritmo de transformação sem precedentes. O contexto económico global continua marcado por incerteza, mas também por uma capacidade renovada de adaptação das empresas, que evoluem ao compasso da digitalização, da escassez de talento e da aceleração da inteligência artificial (IA). Portugal acompanha essa dinâmica: continuamos a crescer apoiados em setores estratégicos – como tecnologia, serviços especializados, logística e turismo – ao mesmo tempo que enfrentamos desafios estruturais, desde o envelhecimento demográfico à lacuna de competências, que pressiona a produtividade e a competitividade do país.
Neste cenário, atrair e fidelizar talento deixou de ser um exercício de comunicação e passou a ser um teste de consistência. Para 2026, a principal tendência é clara: as empresas que merecem, atraem. E ser merecedor exige cultura, propósito, transparência e uma visão estratégica centrada nas pessoas.
Os números confirmam o que sentimos no dia a dia: 71% da força de trabalho portuguesa precisará de formação contínua até 2030 e um em cada cinco empregadores admite dificuldade em encontrar os perfis certos. A lacuna entre as competências disponíveis e as que o mercado exige não é apenas tecnológica; é comportamental, emocional e estrutural. E é por isso que, mais do que nunca, as empresas precisam de investir em aprendizagem contínua, gestão de carreira e desenvolvimento humano.
A IA é outro elemento transformador. Segundo a nova edição do Global Workforce of the Future, a IA já é vista como a maior força de mudança no trabalho, ultrapassando a incerteza económica e as discussões sobre flexibilidade. Os profissionais afirmam estar a poupar, em média, duas horas por dia ao utilizar ferramentas de IA, apesar de a perceção nem sempre se traduzir em ganhos reais de produtividade. Este desfasamento mostra que a adoção de tecnologia não basta: é necessário medir impacto, clarificar funções e capacitar as pessoas para tirar valor efetivo da automação.
O estudo confirma também um dado crítico: 71% dos trabalhadores dizem que nada os impede de usar IA, um salto impressionante face aos 19% registados no ano anterior. Este crescimento mostra uma mudança estrutural na confiança e na disponibilidade para integrar tecnologia. No entanto, essa confiança depende de liderança humana: transparência, comunicação e diretrizes éticas continuam a ser fatores decisivos para o bem-estar no trabalho.
E aqui reside uma das tendências mais relevantes: profissionais que compreendem o impacto da IA nas suas funções têm mais propensão para permanecer na organização e maior clareza sobre o valor que entregam. Propósito e alinhamento estratégico tornam-se motores de fidelização: 99% dos trabalhadores que percebem o impacto do seu papel planeiam ficar na empresa nos próximos 12 meses.
Outra dimensão essencial é a diversidade. As equipas multigeracionais e culturalmente diversas são mais inovadoras, rápidas a adaptar-se e mais eficazes a resolver problemas. Para as organizações portuguesas, a gestão da diversidade é uma vantagem competitiva num mercado globalizado, em que a atração de talento internacional e a inclusão de diferentes perfis são fatores determinantes de crescimento.
Em paralelo, a nova Diretiva Europeia de Transparência Salarial eleva o padrão de justiça e reforça a necessidade de equidade. Em 2026, reputação, ética e integridade estarão no centro da decisão de cada candidato. A capacidade de atrair talento dependerá diretamente da credibilidade que as empresas conseguem demonstrar.
A dinâmica geracional será outro eixo crítico. Os mais jovens procuram autonomia com responsabilidade, oportunidades de aprendizagem contínua e clareza sobre o impacto do seu trabalho. As gerações intermédias valorizam estabilidade, reconhecimento e propósito. Os profissionais mais séniores procuram relevância e evolução. A convergência destas necessidades exige modelos de gestão flexíveis, trajetórias personalizadas e processos de recrutamento mais humanos e mais atentos às motivações individuais.
Num país onde a escassez de competências digitais e tecnológicas é real, apenas as empresas que investem em formação estruturada, reskilling e upskilling, serão capazes de suprir a distância entre o presente e o futuro. E esta será uma das grandes prioridades estratégicas da próxima década: transformar talento potencial em talento preparado. As conclusões do Global Workforce of the Future reforçam aquilo que Adecco promove diariamente: a IA será uma alavanca extraordinária, mas é a inteligência humana que continuará a definir a qualidade das decisões, a inovação real e a capacidade de criar ambientes de trabalho mais resilientes e inclusivos.
2026 será um ano em que o talento não se conquista; constrói-se. Com cultura, transparência, propósito e oportunidades reais de crescimento. As empresas que compreenderem esta dinâmica atrairão os melhores profissionais – e, mais importante, construirão equipas preparadas para um mercado em permanente transformação.
Artigo publicado na edição 161 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2025
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI