Autora: Ana Pinto, Diretora de Conteúdos e Desenvolvimento de RH do IIRH-Instituto de Informação em Recursos Humanos
Antes de mais, é importante ressalvar que sou altamente defensora do papel dos Recursos Humanos em procurar dar espaço à felicidade nas organizações, como forma de as tornar produtivas. Nos anos de trabalho em organizações muito diferentes entre si, sempre houve semelhanças e uma das maiores é o foco no bem-estar dos colaboradores, com impacto nos resultados.
As razões são do conhecimento mais ou menos “público”: a promoção do bem-estar nas organizações tem impacto (financeiro, de produtividade, entre outros) nas mesmas, nos colaboradores (mais direto) e, por consequência, na sociedade como um todo.
O crescente investimento neste tema tem raízes óbvias: os números associados a problemas deste tipo são, nos anos pós-covid, muito mais visíveis e em maior escala. Já não podemos fingir que não existem… estão aí e merecem ação.
Surgem, então, abordagens mais holísticas, que abordam o bem-estar dos colaboradores noutros diferentes fatores: financeiro, físico, emocional, ocupacional, etc. Todas elas com foco nos conceitos que acabam por ir dar todos a um mesmo ponto: colaboradores que se sentem bem produzem mais e melhor.
Neste contexto, acabam por surgir novos projetos e funções, cujo objetivo é promover o bem-estar dos colaboradores, alguns deles com objetivo claro na felicidade, associando, assim, um tema ao outro como co-dependentes.
Colaboradores que se sentem bem produzem mais e melhor.
Sendo a felicidade um construto complexo, que depende de muitos fatores (extra profissionais), como poderemos colocar nas “mãos” destes profissionais (na sua maioria, de recursos humanos) este desafio? Mais… sabendo nós que a felicidade é situacional, não estaremos nós, empresas e RH, a criar uma maior pressão (e stress) nas organizações e nas pessoas para estarem sempre “felizes”, quando isso é uma impossibilidade?
O que trago para “cima da mesa” é: onde damos espaço aos dias menos bons de cada um e como é que os incluímos nos objetivos de produtividade? Estaremos nós a impor uma cultura do “estamos todos bem… sempre!” e, com isto, a não dar espaço ao “hoje, não estou bem”?
Porque, ou muito me engano, ou todos temos dias menos bons (ou porque está frio, ou porque está calor, ou porque tenho um familiar com problemas de saúde, ou porque não estou alinhada com os valores da empresa…). Se assim é, como estamos a normalizar os momentos em que, simplesmente, não estamos felizes? Porque sim, é situacional e depende de muitas coisas.
Tanto através dos estudos, como pela experiência prática, tenho claro que empresas que investem no bem-estar (holístico) dos colaboradores são mais rentáveis e sustentáveis. Desafio, ainda assim, as equipas de RH a avaliar os seus investimentos de forma certeira, para que a abordagem holística deixe espaço, também, para o colaborador se sentir infeliz.
Aliás, viver em pleno as emoções (inclusive as que não lhe trazem felicidade imediata) é sinal de crescimento. Damos espaço às equipas para se desenvolverem, quando as deixamos errar e lidar com isso, quando falamos, também, do que corre mal (que a todos acontece) e do que nos deixa sem reação. Deixemos as pessoas terem, igualmente, momentos de infelicidade e ajudemos (com empatia) a passar por isso com naturalidade. Pelo seu bem… estar.