Um diretor de Recursos Humanos (RH) apresentou uma proposta de emprego a um profissional com menos de 30 anos. Entre as condições estava a atribuição de um carro de empresa. A resposta? “Não, obrigada, não quero carro.” Inês Odila, Country Manager da Coverflex em Portugal, partilhou este episódio com Cristina Martins de Barros, Fundadora do iiRH e Diretora Editorial da RHmagazine, no podcast “Pessoas & Talento”, para ilustrar como estão a mudar as expectativas dos trabalhadores.
Um benefício que, há algumas décadas, poderia ser decisivo para aceitar uma proposta de emprego pode hoje ter pouco interesse e a diferença nem sempre é geracional. Segundo Inês Odila, o rendimento pode influenciar mais a escolha dos benefícios do que a idade. Quem recebe salários mais baixos tende a privilegiar despesas de saúde, medicamentos ou educação. Já os profissionais com maior capacidade financeira podem optar por produtos de poupança, como os planos poupança-reforma. A possibilidade de decidir como utilizar os benefícios tornou-se uma das principais expectativas dos trabalhadores, de acordo com a responsável.
O estudo “O Estado da Compensação em Portugal 2026“, desenvolvido pela Coverflex, indica que 64,1% dos profissionais inquiridos recebem benefícios extrassalariais. Porém, Inês Odila recorda que, há alguns anos, algumas empresas ofereciam acesso a um ginásio próximo do escritório ou consultas de psicologia numa clínica específica. O investimento existia, mas nem todos os trabalhadores conseguiam tirar partido dele.
A responsável considera que as organizações têm vindo a adotar modelos mais flexíveis, nos quais cada colaborador decide como utilizar o valor disponibilizado. Para construir um pacote de benefícios, identifica três condições: encontrar uma fonte de financiamento, disponibilizar opções diversificadas e garantir uma utilização simples e contínua através da tecnologia.
A comunicação é igualmente importante. “Não chega dar. Temos que comunicar muito bem aquilo que estamos a dar para as pessoas conseguirem ver esse ganho que estão a receber.” É também necessário esclarecer conceitos relacionados com fiscalidade, poupança e compensação, para que os trabalhadores compreendam o valor daquilo que recebem.
Como saber se os benefícios estão a resultar?
A resposta de Inês Odila é perentória: “Estão a usar, está a resultar. Não estão a usar, não está a resultar.” Uma taxa de utilização de apenas 15% deve, no entender da responsável, levar a empresa a questionar se os benefícios correspondem às necessidades dos trabalhadores ou se estão a ser devidamente comunicados. Já taxas de 70% ou 80% são consideradas razoáveis.
Na Coverflex, a taxa média de utilização ronda os 95%, tendo como referência os trabalhadores que utilizam o valor disponibilizado num período de três meses. A diferença entre disponibilizar um benefício e conseguir que seja efetivamente utilizado é, para Inês Odila, determinante na avaliação da compensação.
Transparência salarial: o maior desafio começa antes de divulgar salários
Portugal ainda não concluiu a transposição da diretiva europeia sobre transparência salarial, mas a preparação já levou algumas empresas a rever remunerações. Segundo Inês Odila, houve organizações que aproveitaram os períodos habituais de revisão salarial para ajustar vencimentos e aproximá-los das bandas salariais que pretendem estabelecer. Outras continuam à espera da definição da legislação nacional.
No entanto, o trabalho não começa na divulgação dos valores. Antes disso, é necessário definir bandas remuneratórias, identificar funções de valor igual ou equivalente e analisar eventuais diferenças salariais.
Há ainda uma dificuldade que ultrapassa os números: explicar aos trabalhadores por que razão existem diferenças remuneratórias entre colegas. Para a Country Manager da Coverflex, a definição de critérios claros poderá facilitar conversas que já acontecem nas organizações, muitas vezes de forma informal e sem informação suficiente. A Coverflex utiliza bandas salariais transparentes desde a sua criação. Isso significa que, durante o recrutamento, uma proposta tem de ser compatível com critérios que possam ser justificados perante quem já trabalha na empresa.
Embora reconheça as preocupações das organizações com a comunicação das remunerações, Inês Odila considera que a transparência poderá tornar essas explicações mais simples. “Quando nós conseguimos passar a ter argumento, é muito mais fácil comunicar”.
Mais trabalho com as mesmas equipas?
A inteligência artificial (IA) está também a alterar a forma como a Coverflex desenvolve software, presta apoio aos clientes e disponibiliza informação aos trabalhadores. Inês Odila aponta a velocidade como uma das principais mudanças. “Conseguimos fazer mais com o mesmo número de pessoas.”
A responsável esclarece que a empresa não pretende reduzir equipas, mas aumentar a sua capacidade de resposta. Entre as aplicações já utilizadas estão ferramentas que permitem esclarecer dúvidas sobre coberturas de seguros de saúde, consultar benefícios ou interpretar uma folha de vencimento.
O bem-estar financeiro também conta
Dias adicionais de férias, dispensa de trabalho no aniversário ou apoio à gestão das finanças pessoais. As empresas estão a encontrar diferentes formas de responder às necessidades dos trabalhadores, e as iniciativas não se concentram num setor específico.
“Nós não vemos uma tendência por indústria. Nós vemos uma tendência quando a liderança é muito preocupada com a compensação”, afirma Inês Odila, a propósito das práticas identificadas nos Prémios da Compensação promovidos pela Coverflex. Entre os exemplos que partilhou está o de uma empresa que disponibilizou apoio especializado para ajudar os colaboradores a gerir o orçamento familiar, incluindo encargos com créditos à habitação e automóveis. A iniciativa partiu do reconhecimento de que as dificuldades financeiras, embora pertençam à esfera pessoal, podem acompanhar os trabalhadores durante o dia e afetar o seu desempenho profissional.
Para a responsável, a compensação pode, por isso, assumir diferentes formas, desde que responda a necessidades concretas e seja efetivamente valorizada por quem a recebe.
Entre os destaques deste episódio:
- A evolução das expectativas dos trabalhadores e a importância da liberdade de escolha;
- A construção, comunicação e avaliação dos pacotes de benefícios flexíveis;
- A preparação das empresas para a transparência salarial;
- A definição de bandas remuneratórias e a comunicação das diferenças salariais;
- A utilização da IA na gestão da compensação;
- O bem-estar financeiro e as práticas das empresas na gestão de pessoas;
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
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