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ARTIGO: Paixão ou vício: o limbo entre o céu e o abismo!

IIRH Por IIRH
2 de Janeiro, 2021
em ARTIGOS TÉCNICOS, SAÚDE E BEM-ESTAR
0
ARTIGO: Paixão ou vício: o limbo entre o céu e o abismo!
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Por Liliana Pitacho
ISCSP-ULisboa

Num momento em que algumas organizações começam a experimentar a redução do horário de trabalho e a uma maior flexibilidade como estratégias para aumentar a produtividade organizacional, continuamos a valorizar colaboradores que trabalham para lá do seu horário de trabalho, que priorizam o trabalho em relação a todas a suas outras áreas de atividade.

Procuramos quem nos der mais, porque é apaixonado pelo que faz. Mas atenção! Será paixão ou vício e obsessão? Qual a linha que os separa? Que consequências trazem consigo?

A forma como cada um de nós se relaciona com o trabalho, o propósito fundamental que o trabalho  remunerado assume na vida de cada individuo reflete a forma como cada um encontra significado no contexto laboral. De acordo com alguns autores, existem três tipos  de orientação para o trabalho, ou seja, podemos relacionarmo-nos com o trabalho de três formas distintas. Podemos ver o trabalho como um chamamento, ou seja, existe uma identificação completa entre o Eu pessoal e Eu profissional, as pessoas são apaixonadas pelo que fazem, têm em si um sentido de missão e são capazes de realizar grandes sacrifícios em prol do seu trabalho. Por oposição, temos a orientação de emprego, em que as pessoas olham para o trabalho exclusivamente como um meio para obter rendimento financeira. Ou ainda, orientação de carreira, na qual as pessoas têm si a ambição de progressão, de reconhecimento de atingir um status social e profissional elevado através da sua atividade profissional.

Na verdade, não existe uma orientação melhor que outra. Contudo, o chamamento surge frequentemente associado a consequências positivas quer para a organização quer para o próprio, nomeadamente, maior satisfação pessoal e profissional, bem-estar, maior nível de comprometimento, maiores níveis de desempenho e consequentemente salários e estatutos mais elevados. Parece-nos, então, o cenário ideal quer para indivíduos quer para organizações. Mas não será bem assim! É bem sabido que não existem rosas sem espinhos e a relação do chamamento com o vício do trabalho e com todas as suas consequências negativas é muito ténue.

Algumas são as vezes em que o chamamento surge associado ao vício de trabalho, à obsessão que lhe é característica e às consequências nefastas como a degradação da vida pessoal e familiar, quebras no desempenho e até burnout.

Então que separa estas duas realidades? O que separa a relação quase idílica e a paixão saudável vivenciada pelos colaboradores com chamamento, da paixão obsessiva, do vicio de trabalho que a médio longo prazo se torna autodestrutivo?

O vício do trabalho como qualquer outro vício é patológico e assenta em mecanismos  e compulsão. Contudo, esta será a adição mais apoiada socialmente. Por exemplo, as organizações tendem a valorizar este comportamento e ao validá-lo incentiva-o. Um importante a alerta, nem todos trabalhamos mais horas porque somos adictos ao trabalho, o vício é composto por mais que o número de horas trabalhadas.

O comportamento é na verdade apenas uma das três componentes do vício de trabalho. A cognição e o afeto serão componentes essenciais para determinar se existe ou não adição com consequências negativas para o próprio e para a organização a médio longo prazo.

Elevados níveis de chamamento estão claramente associados ao elevado envolvimento no trabalho mais também ao afeto positivo, sendo que os indivíduos retiram prazer do seu trabalho. Além disso, apresentam baixa relação com a compulsão que será claramente o lado negativo do vício, constitui a patologia. Contudo, nem todos os indivíduos apresentam o chamamento como orientação pura. Muitas vezes são movidos por mais que uma orientação para o trabalho e apresentam orientações mistas. Por exemplo, os indivíduos podem apresentar um perfil chamamento-carreira, sendo simultaneamente movidos pela paixão característica do chamamento, mas também pela ambição que caracteriza a orientação de carreira. E, quando a elevados níveis de chamamento adicionamos elevados níveis de orientação de carreira há uma clara mudança no padrão de manifestação das variáveis associadas ao vício.

A paixão e ambição de carreira quando conjugadas aumentam determinantemente a compulsão dos indivíduos. Já não trabalham apenas pela paixão ou pelo prazer que retiram da atividade em si mesma, a isto adicionam as ambições, a ambição de progredir na carreira, a ambição de alcançar o status que pretendem e a ambição de serem reconhecidos como almejam. Isto conduz os trabalhadores a uma cruzada pelos seus objetivos e a média longo prazo, se não se conseguirem aproximar das suas metas podem entrar numa espiral de esforço e frustração que os aproximam de forma perigosa da insatisfação e busca permanente. Numa fase inicial, os sentimentos negativos podem ser camuflados pelo prazer e diversão que os indivíduos retiram de uma atividade que lhes dá gozo, mas a longo prazo estes sentimentos positivos vão diminuindo iniciando-se o ciclo autodestrutivo que não é só prejudicial aos próprios mas também para as organizações, nomeadamente através da baixa produtividade, apesar das elevadas horas de trabalho e, as faltas por razões associadas à saúde dos indivíduos.

Certo é que não podemos controlar o perfil dos colaboradores e, além disso, o perfil chamamento carreira também poderá acarretar consequências muito positivas no que respeita ao empenho e desempenho dos colaboradores, podendo mesmo estar associado a elevadas performances. Porém, as organizações terão um papel crucial no que respeita ao “limbo entre o céu e o abismo”, sobretudo no que respeita à implantação de práticas de GRH transparentes, com uma boa gestão das expectativas dos colaboradores e ainda com uma gestão assente na meritocracia.

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