Cerca de 8,9 mil milhões de euros das perdas anuais de produtividade associadas ao stress e aos problemas de saúde psicológica no trabalho resultam de situações em que os colaboradores estão presentes, mas não conseguem desempenhar as suas funções em pleno. O valor é mais do dobro dos 4,4 mil milhões de euros atribuídos ao absentismo e representa aproximadamente dois terços dos custos totais estimados para 2024, segundo o estudo Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações -Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho, em Portugal, divulgado recentemente pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP).
No total, as perdas de produtividade poderão atingir 13,3 mil milhões de euros por ano, o equivalente a cerca de 36 milhões de euros por dia ou 1,5 milhões por hora, considerando todos os dias do ano. Para ilustrar a dimensão deste valor, a OPP compara-o com o investimento atualmente estimado para a construção do novo Aeroporto de Lisboa Luís de Camões. Num único ano, as perdas representam cerca de uma vez e meia esse montante.
A evolução dos custos é igualmente expressiva. Em 2020, as perdas estimadas ascendiam a 3,2 mil milhões de euros. Em 2022, aumentaram para 5,3 mil milhões e, em 2024, atingiram os 13,3 mil milhões. Em quatro anos, o valor mais do que quadruplicou.
“Estes números mostram que não podemos continuar a tratar o stress e os problemas de saúde psicológica no trabalho como um custo inevitável de trabalhar”, afirma Sofia Ramalho, Bastonária da OPP, citada em comunicado. Acrescenta ainda que “estamos perante perdas humanas, organizacionais e económicas de uma dimensão que o país não pode ignorar. Sabemos que uma parte significativa destas perdas pode ser prevenida”.
Em 2024, estima-se que cada trabalhador tenha faltado, em média, 13,5 dias devido ao stress e a problemas de saúde psicológica. A estes somam-se até 27 dias de presentismo, correspondentes a períodos em que os colaboradores continuam a trabalhar, mas com a produtividade reduzida. No conjunto, são até 40,5 dias de produtividade afetada por trabalhador, por ano.
Em 2020, as estimativas apontavam para 6,2 dias de absentismo e 12,4 dias de presentismo, num total de 18,6 dias. A comparação evidencia um agravamento de ambos os indicadores, com particular expressão nas situações de presentismo.
As pequenas e médias empresas (PME) suportam a maior parcela das perdas de produtividade estimadas, num total de cerca de 10,2 mil milhões de euros. Nas grandes empresas, o valor situa-se nos 3,1 mil milhões.
No conjunto das empresas portuguesas não financeiras, os 13,3 mil milhões de euros representam aproximadamente 2,1% do volume de negócios anual e equivalem a 13,5% da despesa com salários e outros encargos sociais. Nas PME, esta última proporção sobe para cerca de 16,5%.
A OPP ressalva que os valores resultam de uma estimativa limitada às empresas não financeiras, excluindo a Administração Pública. O cálculo contempla apenas os custos indiretos associados ao absentismo e ao presentismo, não abrangendo outras despesas decorrentes dos problemas de saúde psicológica.
Prevenção poderia evitar perdas de mil milhões de euros
O relatório estima que uma redução de pelo menos 30% das perdas de produtividade, através de medidas de promoção da saúde psicológica, prevenção e identificação precoce dos problemas, permitiria evitar perdas próximas de quatro mil milhões de euros por ano. A OPP reúne também estudos que apontam para um retorno económico de cinco euros por cada euro investido em saúde psicológica. Em determinadas intervenções, o retorno estimado ultrapassa os nove euros por euro investido. Estes valores correspondem a resultados identificados nos estudos citados e não a uma poupança garantida para todas as organizações.
Para Sofia Ramalho, a saúde psicológica deve integrar as decisões de gestão e as estratégias de sustentabilidade das empresas. “Investir intencionalmente em locais de trabalho física e psicologicamente saudáveis, e promotores de bem-estar, é investir nas pessoas, mas é também uma decisão de gestão, de produtividade e de sustentabilidade.”
Os dados evidenciam também os limites de uma avaliação da produtividade assente apenas nas ausências. Embora o absentismo represente 4,4 mil milhões de euros de perdas estimadas, o presentismo tem um impacto económico duas vezes superior.
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