Leyla Nascimento marcou presença no 51.º Encontro Nacional da APG, em Lisboa, onde alertou os profissionais para a responsabilidade que assumem na representação dos recursos humanos e para o muito que ainda há a fazer pelo setor.
Leyla Nascimento assumiu a presidência da World Federation of People Management Associations (WFPMA) há cinco meses, na conferência anual da Society for Human Resource Management (SHRM). É a atual presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), que presidiu durante dois mandatos, entre 2010 e 2015. É a primeira mulher, em 42 anos de existência da WFPMA, a tomar posse e confessa que, mesmo tendo ocupado cargos executivos, “não foi fácil”. Para os dois anos de mandato, definiu como meta prioritária a partilha de conhecimentos entre as 93 associações que integram a World Federation People of Management Associations, tornando-a uma referência nos recursos humanos.
A presidente da WFPMA considera que o principal desafio dos profissionais do setor reside no regresso ao passado, ou ao simples, porque, segundo Leyla Nascimento, os recursos humanos sofisticam demasiado. “Nunca a Filosofia foi tão importante como agora”, afirma, ao InfoRH, que a entrevistou aquando do 51.º Encontro Nacional da APG, onde marcou presença e destacou a responsabilidade dos profissionais de recursos humanos, que ainda têm muito a fazer pelo setor.
A que trabalhos já deu início, ou continuidade, depois de ter tomado posse da presidência da World Federation People of Management Associations (WFPMA)?
Não acredito em trabalhos que comecem do zero. Começamos sempre dentro de uma base existente. O planeamento estratégico que preparámos para este período incide sobre os seis objetivos da WFPMA. Temos como prioridade a partilha de conhecimentos e estudos que existem nas associações nacionais, como, em Portugal, a APG, que apresenta uma grande bagagem de conhecimento. No nosso planeamento, temos interesse, também, que a Federação se torne uma referência nos temas de RH. Estamos a desenvolver uma aproximação com a Organização Internacional do Trabalho e com o World Economic Forum. Queremos estar mais próximos das grandes universidades, que têm um ensino de ponta, alinhado com as tendências da nossa área. Ontem [a entrevista realizou-se no dia 15 de novembro], estivemos no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa, a convite da direção dos mestrados e doutoramentos em Gestão de Recursos Humanos. Interessa-nos, ainda, a questão da transformação digital. A WFPMA é composta por cinco federações continentais, a federação europeia, onde se encontra a APG, a federação ásia-pacífico, a federação africana, a federação interamericana, onde se situa o Brasil, e a norte-americana, onde se inclui a maior associação do mundo, a SHRM. Precisamos de estar muito próximos e conectados. Temos interesse em dar-lhes suporte, especialmente ao continente africano, que está a crescer, tanto economicamente, como no desenvolvimento de recursos humanos nas empresas. Tivemos uma grata surpresa, no Congresso Mundial em Chicago, ao ver a Nigéria com 150 pessoas na delegação, o que, para nós, é uma amostra da importância que o continente africano confere aos recursos humanos. Este é o nosso planeamento, que pretendemos que possa ser continuado pelo nosso board, de acordo com as propostas que estamos a vislumbrar, para os próximos dois anos.
São, também, do interesse da WFPMA as questões relacionadas com a transformação digital e muito se tem falado sobre o seu impacto no mercado de trabalho. Haverá substituição dos profissionais?
A tecnologia anda em paralelo com a presença física. Não vejo a tecnologia como uma substituição do humano, até porque as tecnologias precisam dos humanos para serem comandadas. O Uber para funcionar precisa que eu o chame. A tecnologia não substitui os humanos, mas facilita muito. Acho que precisamos de desconstruir o conceito de tecnologia. Alguns especialistas apontam que, nos países mais desenvolvidos, as grandes potências já introduziram a inteligência artificial há algum tempo e a taxa de desemprego é menor. A tecnologia não vai substituir o homem, mas vai fazer com que cada um de nós tenha de se adaptar nas suas profissões. Como profissionais de recursos humanos, estamos a caminhar para trabalhar com humanos e inteligência artificial. E hoje já se fala em inteligência cognitiva. Porquê? Porque já se chegou à conclusão que precisa de um homem para a comandar. A tecnologia sozinha, por mais preparada que esteja, precisa de um comando, que é humano. Os recursos humanos vão preparar-se para trabalhar com pessoas e com robots. É um facto e já existe. Na Amazónia, temos uma indústria que trabalha muito bem com robots. A inteligência artificial traz não é a lógica pela lógica, mas a lógica com emoção. Se olharmos para os robots, vemos que têm um grau de emoção conseguido pela programação da inteligência artificial. Não acredito na substituição dos humanos. Acredito, sim, no redimensionamento das profissões. É preciso pensar nisto e os RH precisam de pensar nisto. Temos de pensar na longevidade das pessoas pela qualidade de vida. Em Portugal, assistimos ao envelhecimento da população, que é uma população útil, de vida útil. Como fazer para que estas gerações continuem a trabalhar? É uma resposta para os recursos humanos pensarem, até porque estas gerações, que estão envelhecidas, têm algo que nós precisamos muito. A tomada de decisão exige experiência e estas gerações têm uma bagagem de amadurecimento importante que pode complementar as novas gerações.
Enumerou alguns dos desafios que se apresentam aos profissionais de recursos humanos. Que outros desafios considera que o setor vive neste momento, considerando as diferentes federações que constituem a WFPMA?
Eu diria que há alguns estágios diferentes. Alguns continentes estão mais avançados e apresentam determinadas prioridades características do momento em que se encontram. O principal desafio, hoje, é voltar ao simples. Nós, recursos humanos, sofisticamos demasiado, criamos formulários e metodologias. Como se ouviu no Congresso Nacional da APG, hoje, precisamos de olhar para a arte e para a ciência, para entendermos o que realmente está a acontecer connosco. Nunca a filosofia foi tão importante como agora, porque eu existo, para onde vou e quem sou? As pessoas estão a questionar-se sobre isso, tanto que se discute a questão da qualidade de vida no trabalho. As pessoas não querem continuar a ver o trabalho como algo que não é prazeroso. O ambiente laboral tem de dar prazer e tem de ser um ambiente que me construa e me aperfeiçoe como profissional e como pessoa também. Quando vemos empresas centenárias, como é o caso da General Electric, a acabarem com a avaliação de desempenho formal e a implementarem uma avaliação face-to-face com os seus colaboradores, o que é que isso quer dizer? Que lhes interessa muito ouvir os colaboradores, saber que aspetos acham que podem melhorar e a empresa também. Estamos a ver, hoje, as empresas a trabalharem muito a marca empregadora, porque os profissionais estão a escolher onde querem trabalhar. Não é só a empresa que recruta o profissional, ele também diz se quer ou não quer. A sua exigência é maior, mas é uma exigência baseada no que é saudável e simples. Pensamos no índice de produtividade, mas esquecemo-nos do lado humano, que hoje se faz muito presente,principalmente nas novas gerações, que têm outra proposta, que lidam muito bem com todas estas mudanças. Para as novas gerações, estes impactos são normais, ao contrário da minha geração, para quem cada novidade implica uma nova aprendizagem, dar uns passos atrás e voltar a aprender. A nova geração é multi-tarefa. O recrutamento e seleção é só sobre o conhecimento técnico ou é sobre o que a pessoa viveu e o que pode reaprender quando a empresa precisar? O que as empresas mais querem, hoje, é sobreviver neste mercado de mudança. Para essa sobrevivência, o RH tem de fazer um mea culpa e reinventar-se em algumas situações.
Nós, recursos humanos, sofisticamos demasiado.
Que boas práticas, fruto da sua experiência, considera têm sido levadas a cabo pelos recursos humanos?
Agora há uma maior abertura para experiências diferenciadas, porque nenhum profissional tem todas as respostas. Hoje, precisamos do outro. O que eu não sei, o outro pode complementar. Durante muito tempo, vimos que tínhamos de deter todo o conhecimento e dar as respostas necessárias à empresa. As redes sociais são importantes ferramentas de partilha, que impactam as relações de trabalho. Muitos jovens já não querem trabalhar em grandes empresas, querem abrir o seu próprio negócio. São empreendedores e não se adaptam ao corporativismo, ao horário fixo, e a um banco de horas, que por mais que queira ser flexível acaba não sendo. São outros os desafios que os recursos humanos têm no trabalho com estas pessoas. Tem de fazer com que elas consigam, efetivamente, gerar resultados num momento de mudança. Olhando para o trabalho das lideranças, que também atravessa um processo de mudança, qual é o melhor líder? Aquele que tem a capacidade de responder ao desenvolvimento dessas pessoas e que tem em si um pouco de recursos humanos. Os recursos humanos não são uma área isolada. Todos os gestores são levados a ser gestores de recursos humanos. Se olharmos para as nossas associações no mundo inteiro, vemos que nunca foram tão frequentadas como agora por líderes de outras áreas, porque os recursos humanos são um complemento importante no trabalho que desenvolvem com as suas equipas. A WFPMA sempre foi uma associação que promoveu eventos para profissionais de RH e se, agora, fizermos uma pesquisa, vemos que são frequentados por profissionais de TI, marketing e logística, por exemplo.
Disse, em fevereiro, à revista Melhor que a sua eleição como presidente da WFPMA representava a conquista da liderança feminina. As mulheres veem, ainda hoje, o seu caminho dificultado quando pretendem alcançar cargos de chefia?
A chegada das mulheres a posições de chefia ainda é um processo cultural, eu diria. Não é fácil, ainda, a mulher chegar a cargos de chefia. Estamos a chegar aos cargos principais das organizações, mas diria que ainda temos muito para caminhar. Sobre a mulher ainda se exige muita competência e diferenciação nos resultados. Eu sou de uma época em que, nos meus cargos executivos, passei por diferentes situações. Participava numa reunião e não podia errar, não podia colocar-me numa posição antagónica a outro executivo. Não tinha uma visão muito crítica. Estamos a vencer aos poucos. Acho que a minha possibilidade de estar na Federação Mundial é um exemplo que fica, claro, para a sua história, mas é também um exemplo, eu diria, não só do Brasil. É uma referência que fica para as mulheres de todo o mundo. Ontem ouvi dizer, e ainda não tinha pensado nisto, que sou a primeira mulher de língua portuguesa. Achei um máximo e é verdade. Não foi fácil a minha vida. Sempre ocupei cargos executivos, mas não foi fácil. Fui a primeira mulher na Associação Brasileira dos Recursos Humanos do Brasil, que o Paulo Sardinha irá presidir. Depois de 42 anos, fui eleita a primeira mulher presidente da Federação Mundial. É interessante e intriga um pouco, porque os recursos humanos sempre foram muito ocupados por mulheres. O importante é que essa trajetória vai rompendo barreiras e culturas.
A insatisfação dos brasileiros, evidenciada frequentemente em manifestações, relaciona-se, também, com a gestão das empresas e dos seus profissionais?
O Brasil tem um problema de gestão. Tivemos, ao longo dos últimos 12 anos, problemas sérios de gestão, que impactaram duramente a economia e a sociedade. Estamos com um índice de 14 milhões de desempregados, o que é muito sério. Desses 14 milhões, uma boa parte são jovens que estão a começar uma carreira. Quando houver um pouco de gestão, a balança irá virar para o Brasil, que será uma das maiores potências, porque tem tudo para ser. Um país com a riqueza que nós temos, com a fertilidade do agronegócio, que cresce barbaramente, com produtos minerais que são altamente rentáveis. Não temos nenhum problema de clima. Na área pública, temos vários casos de sucesso, internacionais e premiados, e temos um trabalho em recursos humanos fantástico.
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