Autora: Rute Ablum, Chief Management Officer da PHC Software
Longe vai o tempo de enviarmos os “mais fortes” da aldeia caçar e guerrear, enquanto nos dedicávamos às atividades da aldeia. Que é como quem diz: instruir os mais jovens, cuidar dos doentes, tratar da terra. Essa divisão milenar deixou de fazer sentido no mundo moderno, mas porque continuamos com tantos entraves à equidade entre homens e mulheres?
Talvez porque nos seja difícil de ver através do nevoeiro que paira diante os nossos olhos. De um lado, o extremismo destrutivo que se alimenta quase de um ódio contra os homens; do outro, a submissão a um chauvinismo bacoco de um tempo que já passou. Em ambos os casos, duas posições em que uma mulher moderna, moderada e segura dificilmente se revê.
Ser mulher é uma escolha. E é verdade que não se nasce mulher, torna-se mulher. Nisso, Simone de Beauvoir tinha razão. Talvez não da forma como o pensou, porque, felizmente, o que é hoje uma mulher é muito diferente do que era no final dos anos 40. Temos mais liberdade, e com isso também uma carga de trabalho digna de uma epopeia grega.
Hoje, ser mulher é levantar às 7h00, trabalhar o dia inteiro, chegar a casa pelas 21h para estar com a família e saber que o dia ainda não terminou. E no meio de tanta responsabilidade, como se percebe que ainda existam mulheres que escolham aceitar aquela piada de mau gosto? Que seja expectável que à partida sejamos nós a tratar das tarefas domésticas – desde o bolo do filho para a escola, até à limpeza da casa, fazer o jantar, tratar da roupa, etc.?
É uma questão de perspetiva. Um estudo recente da Mckinsey revela que 70% dos homens sentem que têm as tarefas repartidas com a mulher. Apenas 40% das mulheres pensa o mesmo. De facto, esta diferença explica muita coisa. Em particular, que teremos de diminuir a diferença de perceção sobre o nosso volume de trabalho, e sobre o deles. Temos de comunicar, esclarecer, falar. Dialogar.
Comecemos por esclarecer que o volume de trabalho não é o mesmo. E aproveitemos também para falar sobre o gap salarial que sabemos que existe, e que continua um tabu social. É fundamental equilibrar a perspetiva sobre o volume e valor do trabalho. E, durante esse diálogo, escutemos o que muitas vezes o outro sexo nos diz, e não queremos ouvir. Dou um exemplo.
Numa conferência de Women in Business, há uns anos, ouvi um dos poucos homens que se encontrava na sala dizer: «as mulheres têm de ser mais corajosas. O que tenho vindo a assistir é que, quando lhes é oferecida a oportunidade, elas rejeitam. Por medo. De não conseguirem estar à altura ou do desafio profissional ou da conjugação da vida profissional com a família.»
Essa frase deveria deixar-nos a pensar. Teremos nós algumas atitudes de autossabotagem? Porque nos casos em que isso acontece também estamos a contribuir para o “mundo de homens”. Não tenho dúvidas de que se este for um problema, teremos solução.
A falta de confiança que algumas mulheres demonstram, quando escolhem ficar na sombra, sabendo que têm valor e potencial, é algo que está totalmente ao nosso alcance de mudar. Depende apenas de nós. Depende de, na próxima reunião, sentarmo-nos na mesa dos homens e mostrarmos que estamos à altura. Sermos aquilo que os negócios, a gestão, e a empresa precisa: de nós. Do nosso conhecimento, inteligência e capacidade de decisão.
E fazer isso é uma escolha. Tal como ser mulher é uma escolha. É escolher não contribuir para perceções que tornem o jogo viciado. É reconhecer que existem discrepâncias onde não deveriam existir, que devemos falar sobre elas e que podemos mudar a consciência do mundo, estando à altura dos desafios. É aceitá-los, sem medo. E, se não houver tempo de fazer o bolo para a festa de aniversário, compramo-lo. Haverá sempre uma mulher empresária que agradece.
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