Inês de Castro acredita que os departamentos de RH poderão estar a entrar numa nova fase de pressão e redefinição do seu papel dentro das organizações, numa altura em que a IA já começa a redesenhar funções, equipas e modelos de negócio. No mais recente episódio do podcast “Pessoas & Talento”, conduzido por Cristina Martins de Barros, Fundadora do Instituto de Informação em Recursos Humanos e Diretora Editorial da RHmagazine, a Human Capital Strategist deixou vários alertas sobre o futuro do trabalho, a transformação das lideranças e o impacto crescente da automação.
Com mais de 20 anos de experiência em RH, a responsável considera que as empresas estão a viver uma fase de “downsizing silencioso”, impulsionada pela procura de maior eficiência operacional e pelo avanço tecnológico. “Há muitas empresas que entre o final do ano passado, o segundo semestre e o início deste ano, já reduziram cerca de 10% da sua força de trabalho”, disse.
Apesar de considerar inevitável a criação de novas funções ligadas à IA e à tecnologia, admite preocupação. “Penso que atingimos o pico da importância dos RH no pós-Covid”, sublinhou, acrescentando que muitas organizações poderão voltar a recentrar prioridades exclusivamente nos resultados financeiros.
Inês de Castro traçou também uma leitura sobre a evolução da função RH nas últimas décadas. Para a responsável, um dos momentos mais marcantes dessa transformação aconteceu quando os departamentos de RH passaram a responder diretamente aos CEOs.
Na sua perspetiva, isso permitiu que os RH conquistassem maior influência estratégica, sobretudo num período em que a atração e retenção de talento passaram a ser uma prioridade crítica para as empresas. Ainda assim, “à medida que as empresas procuram cada vez mais eficiência e reduzir as suas forças de trabalho humanas, temo que comecem a valorizar menos o papel dos recursos humanos”.
Atrasados na literacia digital?
Para a especialista, o verdadeiro potencial da tecnologia poderá estar na capacidade de libertar profissionais de tarefas mais rotineiras e administrativas. Nesse sentido, defende que as próprias equipas de RH devem assumir um papel pioneiro na adoção tecnológica dentro das empresas. “As equipas de recursos humanos devem ser equipas muito bem treinadas, devem estar à frente para conseguir compreender para onde é que o negócio tem que ir”, defendeu. No seu entender, “estamos atrasados na literacia digital das equipas no geral”.
Inês de Castro assumiu-se ainda como defensora de modelos híbridos e considera que muitas organizações recuaram demasiado rapidamente nas políticas de trabalho remoto. “Gostava muito que alguém me conseguisse comprovar a maior produtividade deste retorno aos escritórios“, atirou. A responsável admite que o contacto presencial continua a ser importante para o desenvolvimento das relações humanas e para evitar fenómenos de isolamento social, mas acredita que o equilíbrio entre presença física e flexibilidade continuará a fazer parte do futuro do trabalho.
A nova geração está a aprender com líderes “narcisistas”?
A transformação dos modelos de liderança foi outro dos pontos mais marcantes da conversa. A Human Capital Strategist admite preocupação com a crescente visibilidade de líderes mais autoritários, narcisistas e centrados em si próprios, tanto na política como no setor tecnológico. “Quem são os exemplos de sucesso? São líderes extremamente narcisistas, autocráticos, com pouco respeito pelo outro”, afirmou, referindo-se ao impacto que estas figuras poderão ter nas novas gerações.
A responsável teme que esta mudança de referências venha a influenciar também as culturas organizacionais e a forma como os futuros líderes encaram o poder dentro das empresas. “Questiono-me que impacto terá isto nas novas gerações.”
Cultura organizacional: tudo começa no topo?
Ao mesmo tempo, reforça que a responsabilidade pela cultura continua a começar no topo das organizações. “É incrível como maus líderes, ou líderes com personalidades completamente diferentes daquilo que era a cultura da organização, tão facilmente penetram na cultura organizacional e a alteram”, apontou.
Já perto do final do podcast, Inês de Castro deixou também uma reflexão sobre aquilo que considera ser a principal missão dos profissionais de RH. “O nosso papel tem que ser sempre um papel de promover o equilíbrio entre a orientação para os resultados e a orientação para as pessoas.”
Na sua visão, os RH devem continuar a assumir um papel de influência dentro das organizações, mesmo em contextos de pressão económica ou mudança tecnológica acelerada. “Uma empresa com a orientação para as pessoas, com o equilíbrio certo, será certamente uma empresa muito mais sustentável e com maior longevidade”, concluiu.
Entre os destaques deste episódio:
- O impacto da IA no futuro dos recursos humanos e dos postos de trabalho;
- Os “downsizing silenciosos” que já estão a acontecer nas empresas;
- O papel estratégico dos RH na transformação digital;
- O regresso ao escritório e os desafios do teletrabalho;
- A evolução das lideranças e o impacto dos modelos mais autocráticos.
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
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