As empresas estão a investir cada vez mais em benefícios ligados ao bem-estar, mas isso não significa que os colaboradores os utilizem ou que essas iniciativas tenham impacto. A ideia foi unânime entre todos os oradores da mesa-redonda “Como criar hábitos de bem-estar que as pessoas adotam de forma consistente?”, durante a 31.ª edição do Fórum RH, que decorreu a 5 de maio, no Estádio do Sport Lisboa e Benfica, sob o mote “Trabalho 5.0 – Humanos no Centro, Inteligência em Movimento”.
Moderada por Cristina Martins de Barros,Fundadora do Instituto de Informação em Recursos Humanos, a conversa reuniu Afonso Rodrigues, SMB Sales Director da Urban Sports Club (Wellhub Company), Pedro Fialho, Head of Talent Management & Deputy CPO da Sword Health, e Sara Mendes, Head of People & Talent da KLx.
Com acesso a dados de milhares de organizações através da Wellhub, Afonso Rodrigues fez questão de frisar que “ter um benefício não chega”. Para o responsável, uma das principais diferenças entre empresas onde os programas de bem-estar têm adesão e outras onde acabam esquecidos está na forma como as lideranças incentivam a sua utilização. Ainda assim, lembrou que “o bem-estar também é uma responsabilidade individual”.
“Há muitas empresas com chefia e pouca liderança“, atirou também Afonso Rodrigues. No seu entender, a diferença entre uma política eficaz e uma iniciativa simbólica está, muitas vezes, na atitude das chefias intermédias. Nas organizações onde existem “líderes empáticos”, acrescentou, a adesão aos programas de bem-estar tende a ser significativamente superior.
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Para ilustrar essa ideia, o responsável destacou o caso da OLX como um dos exemplos mais bem-sucedidos da implementação da solução da empresa em Portugal e falou do papel de Tiago Ginja, Workplace & Employee Experience Manager da OLX, que acabou por tornar-se um exemplo interno de transformação pessoal. “O Tiago tinha problemas de peso e conseguiu transformar isso numa oportunidade para ele e para os outros. Criou comunidades de paddle e várias atividades dentro da própria OLX.” Ao longo dos últimos anos, a empresa conseguiu mesmo reduzir níveis de absentismo.
Se a Wellhub trouxe para a conversa a importância da liderança e da responsabilização individual, a perspetiva da KLx centrou-se na necessidade de integrar o bem-estar na própria cultura organizacional e não apenas em iniciativas isoladas. “O principal erro é utilizar o bem-estar como ações individualizadas e não inseri-las na cultura da empresa”, considerou Sara Mendes, Head of People & Talent.
A responsável explicou que a KLx tem procurado construir um “ecossistema integral” de bem-estar alinhado com diferentes necessidades e fases da vida dos colaboradores, “em que as pessoas sejam responsáveis e possam decidir o que é que precisam nesta fase da vida”.
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Do seguro de saúde ao passe social: as medidas com maior adesão
Entre as iniciativas implementadas pela KLx estão consultas de saúde mental incluídas no seguro de saúde, workshops ligados à alimentação saudável e benefícios associados à mobilidade, incluindo o pagamento do passe social aos colaboradores. “São ações que efetivamente vão ao encontro daquilo que as pessoas realmente necessitam”, explicou Sara Mendes. Mas, antes de qualquer medida, há algo que considera essencial: ouvir.
Do lado da Sword Health, Pedro Fialho partilhou a experiência de uma empresa que funciona num modelo praticamente remoto e que aposta fortemente na autonomia e na flexibilidade, incluindo uma política de férias ilimitadas. Mais do que um benefício “de marketing”, o Head of Talent Management & Deputy CPO descreveu esta abordagem como uma ferramenta de gestão humana e simplificação de processos. “Tive há poucas semanas uma pessoa da minha equipa a quem faleceu um familiar e aquilo que estava na lei não era suficiente. Simplesmente disse: ‘Põe mais uns dias de férias ilimitadas’.”
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Ao longo da conversa, Pedro Fialho insistiu várias vezes na ideia de que não existe uma fórmula universal de bem-estar. “O que é bem-estar para mim é diferente do que é para os outros.” Nesse sentido, acredita que o papel das empresas deve passar sobretudo por “dar espaço, opções e alguma guidance [aconselhamento, em português]”.
Ainda que a Sword Health opere num modelo remoto, a ligação entre pessoas continua a ser vista como prioritária. Por isso, a empresa aposta em mecanismos de integração e proximidade entre equipas, incluindo programas específicos para novos colaboradores e encontros presenciais anuais. “Precisamos dessa ligação com pessoas.”
A experiência da KLx no pós-pandemia trouxe outro tema para a discussão: o regresso ao escritório. A empresa tentou inicialmente voltar a um modelo de três dias presenciais por semana, mas acabou por enfrentar forte resistência interna. “Não correu bem”, admitiu Sara Mendes.
A solução passou por renegociar um modelo híbrido mais flexível, com dois dias presenciais em média e maior liberdade de horários. Olhando para trás, a responsável acredita que um dos principais problemas esteve na forma como o processo foi comunicado. “É importante as pessoas perceberem o porquê.”
O risco das iniciativas que “ficam giras no LinkedIn”
Já na reta final da conversa, os participantes deixaram vários alertas às empresas que continuam a olhar para o bem-estar apenas como um benefício complementar ou uma ferramenta de employer branding. Afonso Rodrigues criticou organizações que implementam iniciativas apenas porque “ficam giras no LinkedIn ou nas job descriptions”, sem criar condições reais para que tenham impacto. Ainda assim, deixou um aviso final às organizações: “O custo da inação é quase sempre muito maior do que o custo da ação”.
Recorde-se que a 31.ª edição do Fórum RH contou com o patrocínio premium da Adecco, Aon, DECO PROteste, Edenred, Grow-Ing/isEazy, ISQ Academy, Seresco, Sibs Multicert e Workplace Options. Entre os restantes patrocinadores encontram-se a Cegid, Factorial, GFoundry, GoFluent, GoodHabitz, ISCTE – Executive Education, Cornerstone/ISQe, Mercer, Team 2, Urban Sports Club e Wospee. A Actuasys, a Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas, a Dynargie, a Didaskalia, a Nubhora e a Pulso Portugal integraram o conjunto de expositores e apoios. O Networking Lounge foi patrocinado pelo Clan.
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