A
inteligência artificial (IA) está a entrar rapidamente nas empresas, mas a maioria dos trabalhadores continua sem formação para tirar partido destas ferramentas. O aviso foi deixado por Nuno Abreu, Executive Director HR Solutions da Aon Portugal, durante o podcast “Pessoas & Talento”, do iiRH, numa conversa com Cristina Martins de Barros, Fundadora do iiRH e Diretora Editorial da RHmagazine.
Os dados do relatório “Technology powered. People driven.”, da Aon, revelam que 73% das organizações já implementaram ou estão a testar soluções de IA. No entanto, apenas 18% envolveram a maioria dos colaboradores em programas de formação relacionados com estas tecnologias.
Na própria Aon, a resposta passou pela criação de uma plataforma interna de IA e por um programa global de formação dirigido a milhares de colaboradores. A estratégia incluiu ainda a constituição de comunidades internas responsáveis por identificar oportunidades de aplicação prática da tecnologia e partilhar conhecimento com os restantes colegas.
Apesar do entusiasmo em torno da IA, Nuno Abreu alerta para os riscos de uma abordagem excessivamente restritiva. Perante organizações que optam por bloquear o acesso a estas ferramentas, o especialista considera que essa estratégia está condenada ao fracasso.
Num contexto de crescente automatização, o relatório da Aon identifica ainda três competências particularmente relevantes para os próximos anos: adaptabilidade, liderança e literacia digital. “Competências humanas são chave”, resume Nuno Abreu.
Benefícios flexíveis: até onde deve ir a personalização?
Outro dos temas em destaque na conversa foi a evolução dos benefícios. Segundo o responsável, as empresas têm vindo a disponibilizar cada vez mais opções aos colaboradores, não apenas ao nível dos benefícios, mas também das carreiras e da própria experiência de trabalho. Contudo, o próprio questiona se essa tendência não estará a comprometer a identidade das organizações. “Começo a pensar um pouco se não estamos a ir longe demais”, afirma. No seu entender, quando cada colaborador constrói uma experiência totalmente diferente, torna-se mais difícil transmitir uma proposta de valor clara e distintiva.
O especialista alerta ainda para o risco dos colaboradores privilegiarem benefícios de curto prazo. Nuno Abreu considera que existe uma perceção insuficiente sobre os desafios associados à reforma, lembrando que, para quem entra hoje no mercado de trabalho, a Segurança Social poderá assegurar menos de 40% do último rendimento. “Estamos a dizer que alguém quando se reforma tem 40% do Estado”, afirma. A situação torna-se ainda mais desafiante porque, ao mesmo tempo, desaparecem vários benefícios associados ao emprego. “Vou reduzir o meu salário em 60% e vou viver mais 20 ou 30 anos.”
Apesar da crescente aposta em programas de literacia financeira, considera que a maioria das pessoas continua a a preparar a reforma demasiado tarde. “Quando é que as pessoas se começam a preocupar? É aos 50 anos, aos 55. É tarde demais.” Por isso, defende uma maior intervenção das empresas na educação financeira dos colaboradores e na promoção de instrumentos complementares de poupança.
A mudança que já não pode ser adiada
A transposição da Diretiva Europeia da Transparência Salarial foi outro dos temas abordados. Nuno Abreu acredita que a mudança será inevitável e terá impacto significativo na forma como as organizações gerem remunerações e comunicam com os colaboradores. Mais do que combater diferenças salariais entre homens e mulheres, entende que a diretiva pretende introduzir maior racionalidade e transparência nos sistemas remuneratórios. “Enquanto as políticas retributivas forem opacas vamos continuar a perpetuar desigualdades”, diz.
Segundo a experiência da Aon junto das empresas portuguesas, os principais desafios não estão na definição das estruturas salariais, mas sim na comunicação e na preparação das lideranças. “Quando o vencimento deixa de ser segredo e forem bater à porta do manager para perguntar porque é que eu ganho mais ou menos do que outro, ele ser capaz de responder com critério”, exemplifica.
A obrigatoriedade de divulgar bandas salariais nos anúncios de emprego será uma das mudanças mais visíveis. Para Nuno Abreu, esta medida poderá tornar os processos de recrutamento mais eficientes e transparentes, permitindo aos candidatos avaliar desde o início se uma oportunidade corresponde às suas expectativas.
Ao longo da conversa, o responsável deixou ainda uma mensagem transversal a todos os desafios identificados pelo relatório: a tecnologia continuará a transformar profundamente o trabalho, mas serão as pessoas, as competências e a capacidade de comunicação das organizações a determinar quem consegue tirar verdadeiro partido dessa transformação. Como resume o próprio estudo, a tecnologia pode ser o motor da mudança, mas continua a ser o fator humano que faz a diferença.
Entre os destaques deste episódio:
- O desfasamento entre a adoção da IA e a formação dos colaboradores;
- As competências mais valorizadas nos próximos anos;
- Os riscos de uma personalização excessiva dos benefícios e da experiência dos colaboradores;
- A importância dos planos de pensões, da proteção social e da literacia financeira;
- O impacto da Diretiva Europeia da Transparência Salarial nas empresas portuguesas.
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI