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inteligência artificial (IA) já decide quem avança num processo de recrutamento, que currículos aparecem primeiro numa triagem, que respostas chegam mais rapidamente aos colaboradores e até que competências internas podem encaixar melhor numa oportunidade de carreira. Mas, afinal, quem é responsável quando a decisão vem do algoritmo?
Foi essa a pergunta que deu o mote à mesa-redonda “Quem é responsável quando a decisão é do algoritmo?”, moderada por Rita Cadillon, HR Director da Cegid para Portugal & Africa, na 31.ª edição do Fórum RH, que decorreu a 5 de maio, no Estádio do Sport Lisboa e Benfica, sob o mote “Trabalho 5.0 – Humanos no Centro, Inteligência em Movimento”. O debate juntou Marta Amador, HR Business Partner da AstraZeneca, Ana Pereira Cruz, Global People Business Lead da Sonae Sierra, e Nuno Peixinho, Country Deputy HR Director da FORVIA.
IA já chegou ao chão de fábrica (e antes do que muitos pensavam)
Se ainda existe a ideia de que a IA é, sobretudo, uma ferramenta associada a escritórios, assistentes virtuais ou plataformas como ChatGPT e Copilot, Nuno Peixinho diz que a realidade industrial já vai bastante mais à frente. “Já temos integrados nos processos industriais processos de inteligência artificial que permitem otimizar o processo industrial propriamente dito, seja em testes de qualidade, seja em verificação do produto no final da linha produtiva”, explicou.
O responsável da FORVIA/Faurecia deu ainda o exemplo de sistemas automatizados capazes de analisar produtos no final da linha de produção através de câmaras inteligentes que verificam defeitos, por exemplo, em tempo real. Acrescentou ainda que, no seu entender, o debate continua excessivamente centrado nas ferramentas como o ChatGPT, Copilot ou Gemini, quando a tecnologia já está “muito mais enraizada” nas operações das empresas.
Recrutamento com IA? Sim
Na AstraZeneca, a utilização de IA nos processos de recrutamento já faz parte da operação há vários anos. Marta Amador explicou que os sistemas automatizados ajudam na triagem curricular, análise de candidatos, assessments e automatização de tarefas administrativas associadas ao recrutamento, mas “nunca para decisão”.
A responsável acrescentou que a empresa implementou mecanismos de auditoria permanentes para monitorizar possíveis enviesamentos do algoritmo. “Analisamos o tipo de respostas que vêm da inteligência artificial, através de auditorias ao sistema, onde testamos os chamados vieses que sabemos que existem.”
Marta Amador admitiu ainda que determinados perfis podem ficar mais afastados dos filtros automatizados. “As pessoas com deficiências, por norma, também podem estar mais afastadas ou não aparecerem nestas listagens.” Por isso, explicou, a AstraZeneca mantém equipas dedicadas exclusivamente ao recrutamento inclusivo e reforça que a tecnologia funciona apenas como ferramenta complementar.
RH já lidera projetos de IA
Na Sonae Sierra, os recursos humanos (RH) assumiram um papel particularmente relevante no processo de implementação da IA dentro da organização. Segundo a responsável, a IA já está a ser utilizada para acelerar processos administrativos, aumentar a rapidez de resposta e personalizar experiências internas e externas.
No recrutamento e na gestão de talento, a empresa está agora a avançar com projetos focados, sobretudo, em competências e skills, para reduzir riscos de enviesamento. Ainda assim, Ana Pereira Cruz garantiu que “há um grupo de pessoas que analisa esses reports“. “A decisão é sempre humana.”
Um dos momentos mais fortes da mesa-redonda surgiu quando Nuno Peixinho defendeu que a IA poderá alterar o próprio conceito de liderança nas organizações. “O líder deixa de ser o que sabe mais à mesa”, afirmou, frisando que esta “pode ser a grande oportunidade de finalmente termos líderes com competências de liderança”.
O responsável alertou ainda para um fenómeno que considera subestimado: o possível desaparecimento de níveis hierárquicos intermédios dentro das empresas. Com a IA a acelerar o acesso à informação e a capacidade de decisão, Nuno Peixinho acredita que muitas dessas camadas poderão perder relevância nos próximos anos.
Na AstraZeneca, a IA já está também presente no suporte interno aos colaboradores. Marta Amador revelou que a empresa utiliza um bot como primeira linha de resposta para questões de RH. Ainda assim, explicou, o sistema funciona sempre com supervisão humana.
Na Sonae Sierra, Ana Pereira Cruz explicou que a empresa desenvolveu uma solução própria semelhante ao ChatGPT. “Temos o nosso próprio ChatGPT e está numa cloud só nossa para garantir que os dados não saem dali.”
Automatizar tudo?
Apesar da crescente automatização, todos defenderam que determinados processos continuarão inevitavelmente dependentes de contexto humano, diálogo e interpretação. Ana Pereira Cruz deu o exemplo da gestão de carreira. “Um plano de carreira tem por base competências e skills, mas depois este plano tem que ser algo partilhado entre o colaborador, a chefia e a empresa. E aqui a IA não consegue.”
Recorde-se que a 31.ª edição do Fórum RH contou com o patrocínio premium da Adecco, Aon, DECO PROteste, Edenred, Grow-Ing/isEazy, ISQ Academy, Seresco, Sibs Multicert e Workplace Options. Entre os restantes patrocinadores encontram-se a Cegid, Factorial, GFoundry, GoFluent, GoodHabitz, ISCTE – Executive Education, Cornerstone/ISQe, Mercer, Team 2, Urban Sports Club e Wospee. A Actuasys, a Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas, a Dynargie, a Didaskalia, a Nubhora e a Pulso Portugal integraram o conjunto de expositores e apoios. O Networking Lounge foi patrocinado pelo Clan.
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