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Andres Ortolá, Microsoft Portugal. O futuro é híbrido: humanos e agentes de IA nas equipas

O futuro chegou. Numa altura em que a inteligência artificial (IA) redefine o mundo do trabalho, o CEO da Microsoft Portugal reflete sobre os desafios e oportunidades de liderar numa era em que a tecnologia pode - e deve - promover culturas mais ágeis, envolvidas e produtivas.

IIRH Por IIRH
11 de Fevereiro, 2026
em DESTAQUE DA SEMANA, PESSOAS
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Andres Ortolá, Microsoft Portugal. O futuro é híbrido: humanos e agentes de IA nas equipas
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A Microsoft tem sido protagonista na forma Microsoft tem sido protagonista na forma como a IA está a transformar o mundo do trabalho. Na sua visão, qual será o papel da liderança na adaptação das or ganizações a esta nova realidade tecnológica?

A revolução da IA que estamos a viver é, acima de tudo, humana e a urgência é real. O mais recente Work Trend Index revela que quase metade dos colaboradores (48%) e mais de metade dos líderes (52%) sentem que o trabalho é caótico e fragmentado. Além disso, 40% das pessoas que estão online às seis da manhã já estão a rever e-mails. O colaborador médio recebe 117 e-mails e 153 mensagens no Teams por dia. Este ritmo incessante está a esgotar a capacidade de resposta dos profissionais e a retirar produtividade, criatividade e pensamento estratégico aos colaboradores.

A liderança assume hoje um papel determinante como catalisadora da mudança dentro das organizações. Cabe aos líderes inverter esta tendência, utilizando a IA para redefinir prioridades e proteger o tempo de foco, antes que a sobrecarga comprometa o bem-estar das equipas. Na Microsoft, acreditamos que os líderes devem construir uma visão clara e inspiradora sobre como a IA pode libertar o potencial das pessoas, disponibilizando soluções que promovam a produtividade, a criatividade e o alinhamento com os objetivos da organização. O Copilot, por exemplo, já está a transformar o quotidiano ao eliminar tarefas repetitivas e devolver tempo valioso para o pensamento estratégico e a colaboração.

É fundamental criar ambientes onde a adoção responsável da IA seja promovida, o desenvolvimento contínuo de competências seja incentivado e as equipas estejam preparadas para trabalhar em conjunto com a tecnologia. Uma cultura onde a capacitação digital tem tanto peso como o desenvolvimento das competências humanas, onde se compreende que criar um agente não exige uma equipa de especialistas, mas antes uma orientação em linguagem natural sobre o desafio, a tarefa, a localização da informação, dedicando apenas alguns minutos para dar instruções, como se se tratasse de orientar um novo elemento da equipa. O verdadeiro valor da IA reside, precisamente, na capacidade de libertar tempo para que as pessoas se dediquem ao que realmente importa: pensar, criar, decidir e inovar. Nunca esquecendo que é a IA que está ao serviço das pessoas, amplificando as suas capacidades e não o contrário.

“Nesta nova era, os recursos humanos assumem um papel estratégico. São os arquitetos das novas hierarquias híbridas.”

Estamos a assistir a uma redefinição profunda da experiência do colaborador. Como é que a Microsoft integra a tecnologia – incluindo IA – para potenciar equipas mais ágeis, envolvidas e produtivas?

Na Microsoft, defendemos uma abordagem integrada, onde tecnologia, dados e cultura evoluem em conjunto. Estamos a entrar na era das Frontier Firms, organizações que se destacam pela forma como integram a IA no seu modelo de trabalho. Um dos marcos dessa evolução é a introdução de agentes inteligentes, baseados em IA, que apoiam, mas também executam tarefas de forma autónoma, como gerar relatórios, sintetizar reuniões ou analisar grandes volumes de dados, libertando tempo para que os colaboradores se concentrem em tarefas mais criativas, estratégicas e humanas.

Neste novo contexto, surge o conceito de agent boss, colabora- dores e líderes que sabem construir, delegar e gerir agentes. Este novo estilo de colaboração aproxima-se da mentalidade de um CEO de uma startup digital, onde a autonomia, a experimentação e a agilidade são valorizadas. Nos próximos cinco anos, estima-se que muitas equipas venham a incluir o treino e gestão de agentes no seu dia a dia, tornando esta competência transversal e estratégica em toda a organização. E, nesta nova era, os recursos humanos assumem um papel estratégico. São os arquitetos das novas hierarquias híbridas, compostas por pessoas e agentes, e os responsáveis por garantir que esta integração é feita com ética, inclusão e sustentabilidade. Também lhes cabe preparar líderes e equipas para este novo modelo de colaboração, em que a IA é parceira de trabalho.

A adoção de IA em RH vai além da eficiência operacional. Como é que as empresas podem utilizar estas ferramentas para reforçar a sua cultura, promover inclusão e tomar decisões mais humanas?

Considero que deve ser orientada por três grandes eixos de transformação: potenciar a produtividade dos colaboradores; reinventar a forma como os RH servem o negócio; e repensar os processos organizacionais. No primeiro eixo, ao automatizar tarefas administrativas, como a triagem de candidaturas ou a gestão de processos internos, os profissionais de RH podem concentrar-se no desenvolvimento de talento, na escuta ativa e na construção de relações de confiança. No segundo, com acesso a dados em tempo real e análises preditivas, é possível antecipar necessidades, personalizar experiências e alinhar decisões de talento com os objetivos estratégicos da organização. A função de RH deixa de ser apenas operacional e passa a ser um verdadeiro parceiro na criação de valor.

Por fim, a IA permite repensar os processos de forma mais inclusiva e humana. Desde a eliminação de enviesamentos nos processos de recrutamento até à monitorização do bem-estar das equipas, a tecnologia pode ser uma aliada na construção de culturas mais equitativas e transparentes. Um exemplo prático e recente é a utilização de IA para potenciar a aprendizagem. Colaboradores podem agora treinar interações com clientes simulados por IA, de forma natural e realista. Após o treino, recebem feedback detalhado com sugestões de melhoria e pontos a rever.

Num contexto em que as competências digitais e emocionais se cruzam, que prioridades devem estar no topo da agenda dos líderes empresariais portugueses nos próximos três anos?

Mais do que nos próximos três anos, já hoje os líderes empresariais portugueses devem priorizar três grandes áreas. A primeira é a capacitação das equipas, através de modelos de aprendizagem contínua que combinem literacia digital com o desenvolvimento de competências humanas.

A segunda prioridade é a transformação cultural. As organizações devem promover culturas mais abertas à experimentação, à escuta ativa e à confiança mútua. A tecnologia só gera valor quando está integrada numa cultura que valoriza o propósito, o bem-estar e o impacto humano.

Por fim, é essencial redesenhar os modelos de trabalho para acomodar equipas híbridas, compostas por humanos e agentes de IA. Perfis como os agent bosses começam a emergir como líderes que coordenam ecossistemas de colaboração entre pessoas e tecnologia, promovendo agilidade, ética e impacto. Estes líderes não gerem apenas tarefas, mas também relações, contextos e decisões que exigem sensibilidade e visão.

“O talento do futuro será definido pela combinação entre aptidão digital, inteligência emocional e ética na interação com a tecnologia.”

A transformação digital requer mudança cultural. Que desafios mais comuns tem identificado junto dos clientes portugueses da Microsoft e que fatores são decisivos para que essa mudança seja bem-sucedida?

Muitas organizações já têm acesso a ferramentas digitais avançadas, mas continuam a operar com estruturas hierárquicas rígidas, processos pouco colaborativos e culturas marcadas pela aversão ao erro. Esta desconexão entre o potencial tecnológico e a realidade organizacional limita a eficácia da transformação digital. Outro obstáculo frequente é a ausência de uma liderança inspiradora. São os líderes que, ao comunicar com clareza, escutar com empatia e agir com convicção, criam as condições para que a mudança aconteça. Sem isso, as equipas tendem a sentir-se desconectadas, mesmo em ambientes tecnologicamente avançados.

A literacia digital representa também um fator crítico. A disponibilização de novas ferramentas deve ser acompanhada por formação contínua, adaptada às diferentes funções e níveis de maturidade digital. Só assim se garante que os colaboradores se sentem confiantes e preparados para tirar partido da tecnologia.

Como vê o futuro da colaboração entre humanos e IA nas organizações? Acredita que esta relação redefinirá o próprio conceito de talento?

A IA não vem substituir o talento humano, vem ampliá-lo. Ao assumir tarefas repetitivas, oferecer insights em tempo real e apoiar a tomada de decisões, a IA liberta tempo para o que é verdadeiramente humano: a criatividade, o pensamento crítico e a empatia. Esta nova relação com a tecnologia está a redefinir o próprio conceito de talento. Deixamos de valorizar apenas o conhecimento técnico e passamos a dar primazia à capa-
cidade de aprender, adaptar, colaborar e questionar. O talento do futuro será definido pela combinação entre aptidão digital, inteligência emocional e ética na interação com a tecnologia.

Um estudo recente da IDC revela que o número de empresas que utilizam soluções de IA generativa passou de 55% em 2023 para 75% em 2024, o que mostra uma mudança estrutural na forma como as organizações encaram a tecnologia.

Artigo publicado na edição 159 da RHmagazine, referente aos meses de julho e agosto de 2025


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