Por Helena Preto, Finance Manager da LR em Portugal e Membro do Instituto Português da Venda Direta
Está em curso uma mudança estrutural na forma como as novas gerações encaram o trabalho. Num contexto em que os percursos profissionais deixaram de ser estritamente lineares e passaram a ser construídos de forma dinâmica e individualizada, as gerações mais jovens procuram oportunidades que lhes permitam crescer, desenvolver competências e influenciar o seu próprio percurso. Para as atrair, a equação mudou. Atrair talento jovem já não é apenas uma questão de salário, mas sim uma questão de modelo.
As novas gerações entram no mercado de trabalho com expetativas substancialmente diferentes das anteriores. Valorizam a flexibilidade, a autonomia e a possibilidade de construir carreiras dinâmicas, onde a aprendizagem contínua tem, muitas vezes, mais peso do que a progressão hierárquica tradicional. Além da estabilidade financeira, a possibilidade de desenvolvimento pessoal e o bem-estar assumem um papel central.
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Os dados confirmam esta tendência de forma expressiva. Segundo o estudo global 2025 Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, que ouviu mais de 23 mil jovens em 44 países, apenas 6% da Geração Z identifica alcançar cargos de liderança como o principal objetivo da sua carreira. Em contrapartida, quando se trata de escolher um empregador, o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, as oportunidades de aprendizagem e o desenvolvimento contínuo destacam-se. A mesma pesquisa revela que 70% dos jovens da Geração Z afirmam estar a desenvolver competências para progredir nas suas carreiras pelo menos uma vez por semana, evidenciando uma forte aposta no crescimento pessoal.
O sucesso profissional é hoje cada vez mais definido pela capacidade de adaptação e pela aquisição de novas competências, particularmente as soft skills. O mesmo estudo da Deloitte indica que mais de 80% dos inquiridos consideram competências como a comunicação, a liderança e a empatia essenciais para a sua progressão.
Em simultâneo, fenómenos como o social commerce e a creator economy demonstram que a criação de valor já não acontece exclusivamente dentro das estruturas empresariais formais. O mercado global da economia dos criadores ultrapassou os 250 mil milhões de dólares em 2025, com projeções de crescimento acentuado. As plataformas digitais democratizaram o acesso ao mercado e abriram novas formas de participação económica. Os dados refletem esta realidade. Segundo um estudo da Intuit, cerca de dois terços dos jovens entre os 18 e os 35 anos têm ou planeiam iniciar um projeto paralelo, os chamados side hustles, procurando diversificar fontes de rendimento e exercer maior controlo sobre o seu tempo.
É precisamente neste contexto que modelos de negócio, como a venda direta, assumem uma renovada atualidade. A flexibilidade na gestão do tempo, a autonomia na construção da atividade, a aprendizagem contínua e a forte componente relacional e empreendedora respondem diretamente às motivações dos mais jovens. A nível europeu, o setor conta com 5,3 milhões de empreendedores e gera cerca de 30 mil milhões de euros, de acordo com dados da Seldia (2024). O dinamismo atrai cada vez mais as novas gerações. Na Irlanda, por exemplo, a Associação de Venda Direta local reportou recentemente um aumento significativo de jovens com menos de 25 anos a aderir ao setor, representando já 13% do total de distribuidores.
Mais do que uma oportunidade de rendimento, a venda direta funciona como um ambiente propício ao desenvolvimento de competências. A comunicação, a negociação, o marketing digital, a gestão de equipas e o desenvolvimento de redes de contacto são capacidades transferíveis para qualquer setor e cada vez mais procuradas no mercado global.
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O desafio para as organizações passa por compreender que a competição pelo talento já não depende exclusivamente do aspeto financeiro. A capacidade de atração será cada vez mais determinada pela qualidade da experiência proporcionada e pela criação de ambientes onde as pessoas sintam que podem evoluir, aprender e assumir um papel ativo no seu desenvolvimento. O propósito da empresa, o seu impacto na sociedade e a promoção do bem-estar mental são hoje fatores de decisão incontornáveis.
As novas gerações não procuram menos compromisso nem menor ambição. Procuram uma relação diferente com o trabalho, mais alinhada com a forma como vivem e projetam o futuro. As organizações e os modelos de negócio que compreenderem esta mudança estarão mais bem preparados para atrair, desenvolver e reter talento.
Para as novas gerações, o futuro do trabalho mede-se cada vez mais pela liberdade de crescer e aprender. E, acima de tudo, pela escolha consciente dos locais onde possam gerar impacto e acrescentar valor
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